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Finanças, Sustentabilidade
Quanto custa o risco reputacional ao nosso patrimônio
20 de fevereiro de 2019 at 12:39 0

A vida nos prega peças inesperadas e o desastre de Brumadinho nos lembra que não existe segurança total nos mundos dos negócios. 

À parte o aspecto moral das vidas perdidas e de quem é a culpa do desastre ambiental, fica mais uma vez claro de que o risco patrimonial dos investidores sempre estará presente, mesmo apostando em empresas gigantes e de aparente solidez e a principal razão é nossa capacidade de avaliarmos o risco implícito do negócio na sua amplitude maior.

Mal acabamos de sair da grande crise corporativa da Petrobras, em que a empresa foi usada para fins políticos e foi palco de um esquema de bilhões de reais em corrupção para alguns privilegiados e apenas agora voltou aos preços históricos de 5 anos atrás.

A Petrobras passou por uma faxina nas áreas de governança e compliance– procedimento necessário após o escândalo. A nova diretoria tem muitos anos de explicação em inúmeros processos que mancharam a reputação da empresa e acumula a função de limpar toda a sujeira exposta e apagar da nossa memória o fato de ser a campeã do vexame nacional.

Outra grande companhia que foi durante muitos anos um orgulho nacional, possui atualmente o capital misto e ainda recebe influência governamental (via BNDES e PREVI) é a Vale S.A. 

A companhia não sairá ilesa desse desastre ambiental e estrutural dos projetos das barragens, principalmente pela reincidência. Está comprovado que o controle preventivo falhou e a falta de sistemas funcionais e alarme e evacuação de pessoas comprometeu inúmeras vidas. Empresas do porte da Vale tem recursos necessários e capacidade tecnológica para, no mínimo, não deixar acontecer a pane no alarme.

Em casos semelhantes, o risco de imagem é incalculável. Os prejuízos financeiros e jurídicos para os acionistas tornam-se gigantes e comprometem a reputação de uma das maiores empresas da Bolsa de Valores, inclusive em razão do incomensurável prejuízo ambiental. 

A grande questão é: como os investidores no futuro poderão mitigar este tipo de risco e perdas bilionárias?

Antes de 2014, alguém poderia prever que seria exposto um sistema de corrução na Petrobras nos níveis em que foram descobertos? Acredito que não. Talvez alguns mais próximos imaginariam, mas o mercado não é formado de poucos. A grande maioria, como eu, apostaria muito na solidez da empresa. Alguém poderia imaginar que poderíamos ter outro desastre como o de Mariana? Também acredito que não. A percepção coletiva natural é que depois de um grande erro ou catástrofe, as empresas teriam agido para evitar tais desastres e prejuízos.

Cada vez mais tenho a percepção que vamos conviver mais próximos aos novos perigos de investimento de capital, e que deixam marcas que vão muito além dos prejuízos financeiros, jurídicos e reputacionais para todos envolvidos e não envolvidos: os prejuízos para humanidade. 

Essa é uma discussão interminável e antiga. A grande novidade é a importância e o peso do chamado “risco reputacional” em qualquer situação ou contexto de crise. Esse risco aumentou consideravelmente o poder de destruição e impacto nas companhias.  

Reputação Monitorada: nos dias de hoje, a reputação das pessoas e das corporações passa a ser o grande diferencial nos mundos dos negócios.

Alguns casos recentes no Brasil e no mundo mostraram claramente o potencial e o efeito devastador para os investidores: Petrobras, Facebook , Carrefour (em razão da ação de um segurança que levou a morte um animal de ruas), Extra (onde um segurança matou um rapaz nas dependências de uma unidade), BTG Pactual (quando da prisão do CEO), JBS,  Odebrecht e agora Vale. Esses são apenas um exemplo de como muitas companhias perderam valores do seu market capitalem um piscar de olhos. É espantosa a velocidade da destruição de riqueza em função dos gigantismos dos fatores associados a reputação. 

No campo da carreira pessoal e corporativa, a destruição de imagem também está presente em razão da construção do tribunal nas redes sociais, de culpabilidade imediata e execução sumária. Dois casos recentes confirmam essa teoria, do jornalista William Waack e agora Donata Meireles. 

O risco reputacional irá interferir cada vez mais na vida de pessoas públicas e poucas tem habilidade ou estão preparadas para ter uma atuação perto do ideal, com objetivo de conter a disseminação de notícias fora do contexto.

As redes sociais já se tornaram um dos grandes desafios do presente e a velocidade da informação é enorme. Na falta de administração adequada, o que tende a aumentar o risco que envolve a imagem, é preciso ter bastante sangue frio. O atual governador de São Paulo, João Doria, conseguiu reverter o quadro de uma fakenewsàs vésperas da eleição. Donata e Waack não tiveram apoio institucional das suas organizações para assumir uma situação de divulgação de imagens deturpadas de seu verdadeiro sentido.

Basta uma frase fora do contexto, uma foto ou um documento para destruir sumariamente vidas e empresas. Não existe lógica para esses eventos, classe social, sexo ou religião, mas sempre é possível encontrar a motivação, quando investigados. Quem se lembra do caso da mulher assassinada quando a esposa de seu amante, ao descobrir o caso, decidiu atacar sua reputação acusando-a de pedofilia nas redes sociais? Ela foi morta por linchamento, na rua de sua casa e por seus vizinhos, ao terem acesso a fotos montadas e fora do contexto. Essas fotos foram criadas exatamente com esse objetivo: incitar o ódio e o julgamento coletivo.  

E como evitar fakenewsou lidar com uma situação de risco reputacional?  Além de prevenir, a resposta é principalmente a forma e a rapidez na ação, segundo as especialistas Claudia Martinez e Sheila Lustoza da SISAK Gestão de Risco Reputacional. É necessário agir com precisão e administrar situações de crise, sejam elas mentirosas e difamatórias (Donata, João Doria e outros), bem como oriundas de fatos reais.

“Não existe uma receita única, sempre é possível evitar e sempre é possível conter ou diminuir os efeitos de uma crise - o importante é estar preparado” Claudia Martinez 

Com a entrada da Lei de Proteção de Dados, o risco corporativo tenderá a aumentar substancialmente. As redes sociais e grandes corporações que guardam registros pessoais serão passíveis de processos em caso de divulgação de dados não autorizados ou mesmo negligenciados. As multas são grandes e este processo inicia também de uma nova era corporativa. Empresas ou operações digitais, como aplicativos e outros, terão que se adaptar à nova legislação que deverá começar a valer em breve. 

Enfim o mundo mudou e está mudando cada vez mais rápido. Com certeza o risco reputacional corporativo pessoal terá cada vez mais peso em relação às suas consequências, uma vez que seus dirigentes e conselheiros deverão ficar cada vez mais expostos perante a lei e redes sociais.

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Política
Ajuste fiscal, um remédio amargo.
15 de setembro de 2015 at 15:28 0
ajuste fiscal  

Sem dúvida o pacote de aumento de impostos e corte de despesas proposto nesta segunda pelo Poder Executivo, o tão esperado ajuste fiscal, não é do agrado ninguém, pois a possível volta de um imposto amaldiçoado como a CPMF estará de volta caso o Congresso e o Senado aprovem.

O governo somente tirou os cortes de custo da cartola quando percebeu que não havia outra opção, pois a escolha seria entre a bancarrota do país ou pagar a conta ideológica petista, porque corte de custo significa também custo eleitoral. Sem contar o aumento de impostos que gostaria de diluir com o PMDB, que pulou fora quando rapidamente percebeu a manobra. O PT pagará a conta eleitoral, mas a presidenta Dilma poderá colher alguns frutos com a reversão de expectativas.

Sem dúvida que a Standard & Poor’s deu uma ajuda para que os cortes rapidamente aparecessem e as receitas, via aumento de impostos, para o equilíbrio fiscal viessem à tona.

Não adianta nada ficarmos revoltados com IR, que é injusto mesmo - porque não corresponde, em retorno de benefícios, ao que pagamos, mas o importante é termos impostos para pagar, pois o pior seria a inércia do governo. Assim, pelo menos, teremos uma chance de estancar as expectativas negativas e crescentes de descontrole econômico, caminhando para uma deterioração perigosa e de difícil retorno à estabilidade econômica.

Acho que ainda teremos uma aprovação das medidas econômicas com bastante sacrifício, pois nada no Congresso e no Senado passa sem uma barganha política e eleitoral. Faz parte da política, mas penso que passa com algumas modificações - sem tirar a essência da proposta, como no caso da CPMF, de ser utilizada exclusivamente na aposentadoria. A saída não deixa de ser inteligente, pois tem uma boa conotação.

Enfim, como diz o velho ditado "está ruim, mas sempre pode ficar pior".

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Finanças, Investimentos, Política
Crise e grandes oportunidades de investimentos
12 de agosto de 2015 at 13:14 1

post_blogdosaul12_08Ninguém ainda duvida que já convivemos com uma crise instalada, que obviamente começa a ser sentida em níveis diferenciados em todas as faixas de renda.

A tendência é a de que, de novo, haja uma distância maior entre a renda média de cada uma das classes sociais. Deverá ocorrer um retrocesso de 15 anos em alguns setores, mas devemos manter o principal, que é a continuidade democrática que nos protege e não deixa nenhum tipo de poder ter o domínio absoluto, como acontece em outros países da América Latina. Essa manutenção do estado democrático é fundamental para quem investe no país, pois aqui o Congresso legisla, o Senado aprova ou não e os tribunais funcionam. Além disso, outros poderes subordinados – como a Procuradoria e a Polícia Federal – não aceitam passivamente o controle do Executivo.

No campo das oportunidades de investimento e negócios, pode haver um momento bem promissor em alguns setores: a indústria de fusões e aquisições, por exemplo, deve voltar a ser muito ativa e será impulsionada pela restrição de crédito em todas as áreas.

É preciso evitar o pessimismo exagerado, que restringe a capacidade de olhar e analisar ativos que podem, num curto espaço de tempo, tornar-se grandes oportunidades de investimento.

Assim, é importante direcionar o foco. Inicialmente, é necessário lembrar-se de que as pessoas continuam a consumir para viver. Elas ainda têm necessidades de adquirir vestuário, trocar de carro, de moradia e até mesmo de investir para manter os negócios rentáveis ou aproveitar espaços de mercado que se abrem quando competidores com estruturas de gestão inadequadas e alto índice de alavancagem tornam-se inviáveis.

Um dos setores em que esse cenário se verifica é o imobiliário, justamente uma área em que o investidor pode se ancorar com menor risco institucional, já que estará lidando com ativos reais que, historicamente, têm um ciclo mais fácil de entender.

Além disso, com o advento da alienação fiduciária, estabeleceu-se uma estrutura de garantia que facilita a retomada do imóvel quando há inadimplência e que dá suporte para que a indústria não perca o giro de crédito mínimo que é necessário para o sistema como um todo rodar. Também é preciso considerar que sempre haverá preço para ativos estressados ou com renda ou via permuta, pois imóveis são ativos reais que servem de proteção de capital em tempos de inflação alta.

Caso o projeto de lei de repatriação de capital que está em tramitação no Congresso seja aprovado, o setor imobiliário deve ser o que mais capital vai atrair, aproveitando as oportunidades de preços para aquisição de todo tipo de imóvel. Para conseguir um reforço de caixa de R$ 20 bilhões neste ano, o governo federal anistiaria quem tem recursos não declarados fora do país na sua repatriação, mas ficaria com 35% (17,5% de Imposto de Renda e 17,5% de multa).

Seja como for, a avaliação de um bom negócio na área imobiliária tem como parâmetro o metro quadrado para construção, um valor que não deve cair muito, já que esses preços variam conforme a cotação do dólar – que tende a ser manter num patamar elevado -, além de sofrer influência dos preços administrados (energia, água etc) e dos insumos do mercado externo e interno (cimento e ferro, dentre outros).

Isso significa que o investidor deverá ter oportunidade de adquirir ativos por preços bem interessantes, principalmente se tiver possibilidade de repatriar reais em um momento de dólar em alta. Essa combinação pode resultar em descontos formidáveis!

Esse rol terá, ainda, setores que trabalham com a demanda ligada ao consumo de baixo valor agregado, pois quando começa o achatamento na renda da população via perda de poder aquisitivo e inflação, o usual é o nível e a qualidade do consumo caírem. Do filé para alcatra, do peito de frango para a asa, ocorre um downgrade nos hábitos do consumidor: ele não some, só migra.

Existem ainda os setores que devem ficar no final da fila, como, por exemplo, os de infraestrutura e óleo e gás. O primeiro, por questões estruturais, exceto no que se refere às concessões já realizadas de aeroportos, portos e rodovias em que o risco é bem menor. Já os grandes projetos de energia devem penar com o alto custo da burocracia brasileira que, ao contrário do que ocorre no setor imobiliário, foge a qualquer tipo de controle, dada a necessidade de uma série de licenças ambientais e de construção, entre outras, que dependem do emaranhado burocrático em que vivemos e que é incompatível com a realidade do país. A não ser que se criem condições de certificação de construção para que os projetos possam ser efetivados, é quase impossível ter bons resultados nesse segmento.

Naturalmente não se consideraram aqui opções óbvias, como aplicar em renda fixa e títulos pós-fixados indexados à inflação e dólar, que têm um movimento errático baseado em notícias políticas e no desenrolar da crise, de acordo com a deterioração ou melhora do ambiente econômico.

A renda variável também pode vir a apresentar algumas alternativas interessantes, mas depende mais do cenário político do que do econômico, já que fazer análises apenas com base nos balanços das empresas será bastante difícil.

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