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Câmbio, Política
Os mercados antecipam as eleições?
27 de junho de 2018 at 11:32 0

Sem dúvida a greve dos caminhoneiros antecipou o calendário eleitoral. Tanto a bolsa quanto os juros futuros e o câmbio incorporaram os fatores externos advindos da mudança de postura da economia americana. O aumento de juros e o protecionismo da economia americana fez com que fosse interrompida a calmaria que vinha perdurando nas economias emergentes em geral.

Além disso, essa mesma greve evidenciou a realidade e a fragilidade do governo atual que, para se livrar de um incômodo pontual, acomodou a situação e deixou a sensação de que estávamos muito mais vulneráveis do que imaginávamos.

O principal detonador da crise de confiança do mercado foi a demissão do Presidente da Petrobras, Pedro Parente, em função da falta de alinhamento com o discurso do governo de não estar mais vulnerável ao intervencionismo do preço de combustíveis. O governo, entretanto, por meio de decreto, acabou baixando o preço do óleo diesel. Pedro Parente saiu.

Com os mercados extremamente voláteis e seis meses eleitorais pela frente, fica a indagação dos mercados sobre o que esperar da diretriz econômica. Não há sequer um perfil aproximado do possível novo presidente, com exceção dos candidatos de centro, que não parecem ser os favoritos da população conforme as pesquisas recentes.

Aparentemente o gerenciamento dessa crise de confiança coube ao Banco Central. Instalada desde antes da Copa do Mundo, restou ao BC conduzir essa difícil e complicada transição eleitoral, evitando a solidificação do caos e pânico aditivados pelo grau de incerteza agora instalado.

Os mais experientes, como eu e outros da minha geração, já viveram várias crises cambiais. Sabemos como elas começam e os distúrbios gerados à vida cotidiana. A instabilidade do cenário, além de gerar uma grande incerteza na economia e nos negócios em geral, detona o índice de confiança, fundamental para os investimentos.

Nosso câmbio já vinha sendo precificado sem grandes interferências do BC, porém a onda de desvalorização dos mercados emergentes fez necessária a adição de todas as variáveis de risco político.

Em sua última reunião, o FED americano sinalizou uma alta gradual de juros, inviabilizando uma trégua cambial no curto prazo. Essa medida já contamina a curva de juros futuros, criando uma expectativa inflacionária a ser avaliada. Já aqui no Brasil, a decisão do COPOM no último dia 19 não surpreendeu quem acreditava no discurso de meta inflacionária do presidente do BC. O foco continua sendo o target inflacionário, o que não impactaria a trajetória de juros pelos distúrbios no câmbio, deixando de atrair capital especulativo e, consequentemente, diminuindo prêmio de risco do câmbio.

Há um velho ditado do mercado que diz: “a bolsa machuca, os juros aleijam e o câmbio mata”. A sabedoria das gerações passadas se mostrou novamente realidade.

Para que haja clareza: entregar um governo com a volatilidade econômica controlada é uma tarefa árdua, mas possível. Isso dependerá exclusivamente da perícia do Banco Central em administrar a tensão do mercado, dependendo de como vai operar os grandes momentos de estresse cambial.

O dólar a R$ 4,00 já é uma realidade no curto prazo, mesmo com as intervenções diárias do Banco Central. O grande problema não é o alto valor do dólar em si, já que setores da economia se beneficiam disso, e sim a oscilação em alto grau. A mudança de cotação de R$ 4,00 para R$ 4,50 fragiliza a confiança na política cambial brasileira.

O BC não terá trégua diante da intensidade dos eventos de descontinuidade política. Como ficou demonstrado nas últimas semanas, o mercado antecipou as eleições que estavam marcadas para depois da Copa. Cada pesquisa será refletida no dólar, nos juros e na bolsa. Como o câmbio mexe com toda cadeia econômica do país, a volatilidade exacerbada acaba paralisando a atividade econômica. Nessa situação, os agentes financeiros e a própria cadeia de importadores e exportadores têm dificuldades na formação de preço dos seus produtos. Se o dólar estiver muito volátil, o exportador pode estacionar os recursos no exterior, enquanto o importador adiará o fechamento do câmbio.

Não podemos desconsiderar a sensação de desalinhamento entre os juros internos e os juros americanos. Esse descolamento somado à baixa atratividade de investimentos em títulos soberanos brasileiros tem uma consequência: a curva futura de juros sobe.

A medida governamental de intervenções programadas de SWAP, como a anunciada no último dia 8, torna a política cambial mais ativa e menos reativa. Naquela ocasião, o câmbio despencou 6% em um dia e deu uma forte sinalização de mudança de comportamento. O que poucos notaram, entretanto, foi o fato da intervenção vir colada à oferta de crédito ponte de R$ 50 bilhões do FMI para a Argentina, que já estava sofrendo um ataque a sua moeda.

A realidade é que o preço do dólar não está mais alinhado aos indicadores técnicos e à metodologia de preço justo, mas ao prêmio de risco associado ao imponderável, isto é, àquilo que não enxergamos, principalmente no campo eleitoral. Um cenário otimista a favor do câmbio seria o crescimento dos candidatos de centro, em especial Geraldo Alckmin.

Jogue sua calculadora financeira fora, pois será de pouca utilidade para operar o mercado. O momento atual é de observação e sentimento. Fique atento às pesquisas, pois elas serão o gatilho de alta ou baixa do dólar.

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Finanças, Política
Os mercados e as eleições – Parte 2
6 de junho de 2018 at 10:53 0

Falei em meu último artigo sobre a volta da volatilidade aos mercados. Esperávamos um viés de baixa na bolsa, causado pelo momento externo americano e a situação eleitoral brasileira. Os preços não refletem a realidade do cenário externo e isso teria rescaldo em nossa economia.

Só que tudo foi antecipado pela greve dos caminhoneiros. É necessário cautela e poucos movimentos direcionais, pois a chance de se errar agora é maior. A cautela é necessária pois a volatilidade atrai o capital de maior teor especulativo, principalmente junto aos grandes players, ou quem tem apetite para assistir e digerir prejuízos com maior naturalidade.

Os maiores vencedores serão aqueles que mantiverem posição neutra, isto é, com operações com componente de maior hedge ou mesmo com limites de perdas controladas pela maior liquidez de ativos. Por sinal, a liquidez também cobrará um preço e um bom médico financeiro recomendaria cautela com a segunda e a terceira linha de bolsa. Em momentos de estresse a liquidez desaparece.

Para não me repetir, sugiro a leitura dos meus artigos anteriores em que faço a relação entre economia e política. Eles mostrarão como as tendências de mercado serão dadas pelos boletins de pesquisas eleitorais. No campo macroeconômico externo, o principal fator de influência serão os Estados Unidos, já que se fizermos uma análise 360º do mundo veremos que a política Trump continua a ser a grande novidade e atua como trigger do mercado. Quanto mais o presidente americano se movimentar para implementar seu programa de crescimento e melhoria das condições do mercado interno, maior será a pressão do dolad nas moedas locais dos mercados emergentes.

A volatilidade e a volta da concentração do fluxo de investimentos na América são muito ruins. A proteção de capital em ativos menos voláteis e vulneráveis à piora doméstica começa a se tornar estratégica. Como o consumo interno não terá grande crescimento devido à queda do índice de confiança, uma boa alternativa para os investidores em bolsa é a mudança de capital para empresas exportadoras.

O câmbio deverá seguir pressionado até que a situação eleitoral brasileira se mostre mais clara. Uma super desvalorização é improvável, mas a incerteza poderá funcionar como combustível para piora do cenário interno.

Pontos de atenção:

  • O governo é frágil e demonstrou isso cedendo às demandas feitas pelos caminhoneiros;
  • Fluxo cambial desfavorável e com política intervencionista, que controla os fluxos desfavoráveis e aumentam o pessimismo;
  • A situação econômica ruim é boa para os candidatos de extrema esquerda e extrema direita, conforme exposto em meu último artigo;
  • Interrupção no ciclo de baixa do juros e possível viés de alta;

O cenário internacional também deve contribuir com a turbulência brasileira. A zona do Euro terá a Itália como novo protagonista nos noticiários, já que as eleições acenderão novamente a questão da política econômica ortodoxa, com controle do déficit e manutenção de estabilidade em detrimento do chamado bem-estar social. Isso fará com o que debate sobre a saída de alguns países da zona do Euro reacenda. A Grécia é sempre uma lembrança.

Tivemos grandes avanços econômicos, dentre eles a reforma trabalhista, mesmo com um presidente campeão da impopularidade e com pouca margem de manobra. A situação política traz o ceticismo quanto à viabilidade das reformas mesmo após as eleições, afinal o desgaste da classe política dará ao futuro presidente pouca margem de manobra para implementar as reformas estruturais que o país precisa.

O Brasil deverá crescer 2% este ano, já que o ano político econômico acabará este mês. O segundo semestre estará reservado à Copa do Mundo e eleições.

Apesar de todas essas questões, o cenário brasileiro ainda é positivo e as conquistas deste governo em relação ao controle da inflação e ao juro baixo são inegáveis.

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Finanças, Política
Os mercados e a eleição presidencial brasileira
14 de maio de 2018 at 16:00 0

Os mercados dão sinais claros que os tempos fáceis acabaram. Daqui para frente o grau de incerteza tende a aumentar consideravelmente, o que elevará a volatilidade consequentemente.

Pressionado por vários motivos e variáveis que poderão impactar em seu preço, o dólar americano já deu a cara de como vai começar a se comportar. A cotação do dólar oscila por diversos motivos, como as variáveis externas que fogem ao controle brasileiro. É o que está acontecendo atualmente já que a política de Donald Trump tem afetado as economias emergentes.

Uma das promessas de Donald Trump foi valorizar a indústria americana. Com isso, políticas protecionistas foram implantadas nos EUA, o que certamente tem contribuído para o aquecimento da economia norte-americana. Pesa também a redução de impostos corporativos com maior controle da inflação, o que consequentemente gera maior expectativa no aumento da taxa de juro americana. Estes fatores por si só já têm capacidade de apreciar o dólar, consequentemente desvalorizando as moedas emergentes.

Uma das economias que têm sofrido com isso é a argentina, nem tanto pelo efeito externo, mas pela anemia de sua economia, combalida desde os anos 2000. Ajustes fiscais e econômicos foram feitos na Argentina, mas muito ainda precisa ser feito para que os hermanos consigam sair da armadilha inflacionária. Para se ter uma ideia, a expectativa de inflação oficial foi revista de 15% para quase 25% a.a, e a taxa de juros que aqui no Brasil está em 6,25% foi a 40% na Argentina.

Diferentemente do Brasil, a Argentina não possui uma grande reserva cambial que sirva de firewall aos ataques especulativos. Isso fez com que os argentinos pedissem um empréstimo de mais de US$ 30 bilhões ao FMI, contrariando uma promessa de campanha do presidente Mauricio Macri. Além da Argentina, Turquia, Rússia e Brasil agora sofrem com a desvalorização de suas moedas em um efeito que se estenderá por todos os emergentes. O grau de impacto deverá variar de acordo com a confiança externa e a solidez de cada nação. 

O mercado está otimista em relação ao Brasil, e isso me preocupa. Embora com taxa de juro historicamente baixa e inflação no piso, não podemos imaginar um cenário onde o Brasil volte a surfar em céu de brigadeiro, como foi durante a crise global de 2008. Qualquer análise deve sempre levar em conta o cenário interno, mais especificamente o eleitoral, que certamente impactará a economia a depender do eleito e da base partidária que o acompanhará.

Dentre os candidatos viáveis, podemos traçar as seguintes hipóteses:

Uma vitória da centro-direita com Alckmin, Álvaro Dias, Flávio Rocha ou Henrique Meirelles trará poucas mudanças na política econômica. Neste caso teremos uma manutenção do cenário financeiro, com dólar abaixo dos parâmetros já antes da eleição e juros no patamar atual. Isso se deve à crença do mercado na manutenção das reformas econômicas, o que segurará o dólar estável, juro baixo e bolsa em alta.

Caso a centro-esquerda vença com Ciro Gomes, um candidato do PT ou Marina Silva, que se posiciona um pouco mais ao centro, teremos maior indefinição econômica. A tendência pela suspensão das reformas e incerteza de cenários pressionará o dólar que, com a taxa de juro indefinida, fará com que a bolsa entre em queda.

Candidato de extrema-direita líder das pesquisas atuais, Jair Bolsonaro fará os mercados reagirem com bastante volatilidade em caso de vitória. Tudo dependerá da equipe econômica escolhida por ele e qual base eleitoral sustentará seu governo na Câmara e no Senado. Assim como Ciro Gomes, Bolsonaro será questionado pelo mercado por suas políticas na economia e na área social. Neste caso, o dólar deverá extrapolar os preços habituais e o juro deverá subir ligeiramente, em uma tentativa de segurar a especulação no dólar.

Levando todas essas alternativas em consideração, caso tivesse que decidir hoje por um curso de ação eu ficaria fora da bolsa, neutro na questão do juro, ou levemente comprado, e com maior posicionamento no dólar. Não é possível avaliar um cenário de curto prazo com grandes ou pequenos ganhos na compra em bolsa ou juros.

Há pouco para se ganhar e muito para se perder, apesar dos fundamentos financeiros do Brasil ainda estarem estáveis.

E lembre-se do velho ditado, eu sou você amanhã, hermano.

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Câmbio, Investimentos, Juros, Política
Um cenário de incertezas para 2016
11 de fevereiro de 2016 at 11:34 0

economia brasileira 2016

Começamos o ano de 2016 com algumas premissas negativas com o IGPM de janeiro, que veio bem acima do esperado. A prévia do mercado apontava para algo em torno de 0,93% e o efetivo ficou em 1,14%.  Sem dúvida que este será um ano de projeções marcadas por váriaveis econômicas complexas e com revisões bastante difíceis, assim como foi o ano de 2015.

Por que houve tanto erro nas avaliações de projeções econômicas ?

Primeiramente, a avaliação da piora econômica e a queda do índice de confiança foram fundamentais para que os números viessem com grandes desvios do projetado. O modelo moderno econômico não contempla hoje somente modelos ortodoxos, como também não só heterodoxos . Se tomarmos como exemplo a economia americana, o FED e o tesouro americano fizeram coisas impensáveis em outros tempos, como se tornarem sócios de instituições, capitalizando e injetando capital de equity nas instituições financeiras com o objetivo de dizer "não vai quebrar".

Olhando para a economia Chinesa, que contempla um modelo fechado e aberto, com políticas econômicas até mesmo agressivas e ao mesmo tempo controlando o fluxo de capital externo e investimentos, principalmente para pessoas físicas que somente têm opção de investirem lá ou em Hong Kong, com modelo híbrido de capitalismo selvagem e comunista, não sabemos dizer o que hoje se torna um modelo certo ou errado economicamente.

Também temos a zona do Euro, que tenta seguir sem sucesso a forma de reativar a economia através de alocação de liquidez abundante no sistema financeiro, além de taxas de custo de dinheiro negativa e tenta reativar a economia até mesmo para que produzam um pouco de inflação. Assim, tentando sair do alto índice de desemprego que vem ha algum tempo se mantendo acima dos 12% ao ano.

O que é então o modelo econômico certo para as nações, que contemplem a satisfação social de suas populações e deixem as contas públicas em ordem? Este é, de modo geral, o desafio de todos os governos, pois os movimentos sociais demandam sem parar e fazem com que a ordem econômica racional, que é somente gastar o que se tem, seja posta de lado pelos interesses das classes. Privados, públicos , políticos, corporativos, sociais e  assim por diante, todos querem manter prioridade em seus interesses, que no final é a procura pelo mundo economicamente  perfeito.

Este mundo não existe e nunca existiu, pois todos os conceitos macroeconômicos politicamente corretos foram quebrados nesta última década. Por isso sou contrário à política de juros ortodoxa neste momento, pois ela  somente contribuirá para agravar a situação delicada e perigosa que estamos passando no Brasil, pois não estamos em um momento de normalidade econômica. Então, medidas de soluções normais não deveriam ser aplicadas, quando nosso momento é similar ao 2008 dos EUA, sem o abalo do sistema financeiro.  Mas basta ver os números negativos e crescente dos indicadores econômicos onde, se nada for feito de concreto, a deterioração das contas serão explosivas.

Estamos passando por um momento de muita incerteza, tanto pelo lado político como pelo econômico, ainda associado aos fatores externos que poderão ser impactantes em todas economia mundial, como: a redução de crescimento ou mesmo o estouro da bolha chinesa, que poderá contaminar outros países Asiáticos, mais a crise dos preços de petróleo que afeta diretamente as Cias. deste ramo e o orçamento de vários países dependentes da receita desta commoditie, podendo o preço de petróleo significar a falência de centenas de produtores.

Até a imigração síria na Europa, que aumenta o problema do continente Europeu, pode se agravar ainda mais com o referendo britânico. Possivelmente deverão votar a saída ou não da comunidade do euro que, caso se concretize (o que acho bem provável), a Alemanha ficará em um posição bastante delicada, pois a conta ficará – em sua maior parte - para ela e poderá comprometer o futuro do Euro, gerando uma maior desvalorização. Então a dúvida sobre o futuro do Euro novamente poderá vir à tona.

O papel de locomotiva econômica volta a se fortalecer na moeda americana que, sem dúvida, continuará a se valorizar perante as outras moedas. Mas não esqueçamos que estamos diante de uma nova eleição americana para presidente e os EUA também têm seus problemas de limite de endividamento. Até quando conseguirá carregar o mundo como locomotiva se todos forem mal?

Voltando ao plano interno, eu diria que podemos avaliar alguns cenários básicos sem nos atrever a sermos honestos com os números, mas simplesmente arriscar através da tendência objetiva e racional:

Considerando que o processo de impechement morre, teremos 3 anos de uma política econômica quase que totalmente presidencialista no sentido de que o Executivo poderá contar com pouco ou quase nenhum apoio no Congresso, exceto por alguns pontos de pauta de interesse comum não muito relevantes. E como vai se governar assim?

Ora, o governo tem de trabalhar com o que tem nas mãos e se preocupar em levar o avião com a asa quebrada para fazer o melhor pouso possível daqui a três anos, utilizando todas as ferramentas disponíveis para fazer uma gestão com o que o momento lhe permite.

Não vai ser onerando o capital, como estavam propondo até a gestão do Ministro Levy, ao tributar todos os tipos de investimentos de renda fixa que foram criados, dividendos, bolsa de valores e patrimônio, pois o cidadão já é tributado em excesso, o capital está cada vez mais concentrado nas mãos de poucos. E isto continuará a ser uma tendência no mundo e não vai mudar assim. É fundamental atrair o capital para interesses comuns, que signifiquem mais empregos e gerem mais impostos, porque o cidadão deveria ser estimulado a aplicar seus recursos aqui no Brasil, mesmo com o alto risco em que se apresenta o país, e não ser estimulado a mandá-lo para fora.

O capital público já foi maltratado ao extremo com projetos de péssimo retorno, mas poderia certamente ser melhor utilizado para reduzir alguns impactos como o crescimento da dívida pública e em outros projetos que pudessem melhorar o impacto no curto prazo.

O momento é de atração de investidores para projetos de demanda. O capital desconfia do momento, mas não para aquisições, como vem sendo demonstrado pelos inúmeros negócios que estão sendo concretizados por estrangeiros e que deveriam ser estimulados via mercado de capitais ao investidor local e externo, pois é ele quem vai investir nos veículos financeiros via mercado de capitais.

Além disso, o governo poderia propor uma desregulamentação e desburocratização de vários setores que emperram a economia, como por exemplo o que estão fazendo para o setor de aviação - poder receber capital estrangeiro e assim viabilizar as cias aéreas que precisam estar fortes, pois são fundamentais à logística das pessoas.

O caso da Petrobras é típico com o lema histórico de “o petróleo é nosso", onde esqueceram de que para ser nosso precisamos ter recursos para extraí-lo. Assim criou-se a besteira da obrigação de ter percentual de nacionalização e a Petrobras ter de ser dona de tudo. Acabamos ficando na mão.

Como estimular o capital a tomar mais risco? Somente através da confiança e credibilidade, coisas que andam bem abaladas por aqui.

O discurso continua invertido, deveria se falar e tomar atitudes claras em relação à contenção dos gastos e metas de redução da máquina governamental e não pedir somente aumento de tributação, o que gera a pior percepção possível. Novamente tenta-se ir pelo caminho mais fácil, que não gera confiança e nem credibilidade.

Falta transparência. O que foi feito de prático em relação à redução dos ministérios e como se está fazendo isso efetivamente? Acredito que 90% da pessoas não têm ideia de muitas medidas que, acredito, devem estar sendo implementadas com vista à redução e racionalização dos custos.

A única linguagem que os donos do dinheiro poderão acreditar é a de que o país está indo em uma direção minimamente coerente, trabalhando forte no corte de custeio da máquina pública. Quando o governo diz que não tem de onde cortar, dá a impressão que na realidade não quer.

Voltando aos cenários, acredito que a inflação será acima dos 10% novamente,  pela instabilidade dos preços e da economia relativamente fechada pela nossa burocracia excessiva. Mesmo com o risco da perda de mercado, o aumento de preços tenderá ser repassado mesmo com a queda de volume, pois a característica de uma lei de mercado como o nosso (fechado e restritivo) é a da ineficiência mercadológica. É assim em todos segmentos, como por exemplo o cartório que não baixa o preço do reconhecimento de firma porque dominam o mercado e o mesmo acontece em vários serviços administrados. Funciona mais ao menos assim: as taxas de cartão de crédito e cheque especial são punitivas a todos por que? Os bons pagam pelo maus pagadores e o modelo não diferencia o bom pagador do mau.

Assim, muito da inflação está na inércia dos preços com exceção das comoditties e varejo. Para dar mais ênfase ao que falo, é como o caso atual do preço do petróleo, que despencou nos mercados internacionais mas o nosso preço interno se mantém inalterado. Isto é economia de mercado fechada, para que entendam bem.

Quanto ao câmbio, acredito que só sobe se agravado por fatores externos, pois acho que vai trabalhar até o teto de R$ 4,50. O dólar é ligado mais a eventuais impactos externos do que internos. Caso aconteça algum evento extraordinário e não precificado na economia mundial, aí sim poderão impulsionar mais o preço do dólar.

Sobre juros, como já venho falando, acredito na manutenção ou até mesmo na queda, dependendo do desaquecimento da economia. Acredito num PIB de -4% ou até mais, dependendo dos fatores políticos ou do cenário de agravamento da crise, impactada pelo imobilismo do governo, se o plano for só o aumento de impostos.

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Câmbio
Câmbio no Brasil: O problema é operacional, não regulamentar
17 de novembro de 2015 at 17:23 0

câmbio

A notícia que circula hoje é sobre o documento que o PMDB pretende apresentar: um manifesto com 10 propostas para resolver a crise econômica no país. Não importa o partido nesta hora, precisamos pensar no que é melhor para todo mundo. O problema da briga partidária no Brasil, como falei no artigo “House of Cards” é que as disputas cegam os agentes responsáveis pela mudança e solução.

As propostas do PMDB, apresentadas pelo Temer no Congresso da Fundação Ulysses Guimarães, são austeras, com a sugestão principal de reforma do Orçamento da União, com mudanças na Previdência, Saúde, Educação, até na atuação do Banco Central.

Um dos pontos defendidos pelo PMDB é uma mudança na forma que o BC intervém no câmbio. Muito se fala no Brasil sobre intervenção no câmbio, mas nem todos compreendem como a coisa funciona. Existem basicamente três formas de atuação estatal em câmbio. O Swap, que é adotado atualmente, o spot e o forward. Como o próprio nome diz, o Swap é uma troca, quando não existe a entrega da moeda. Existe apenas uma liquidação financeira pela diferença de taxas de câmbio na data de vencimento, podendo ser positiva ou negativa para o BC. Isso é feito para que o governo consiga segurar o valor da moeda sem que suas reservas fiquem vazias, pois há a recompra. Se o BC não adotar essa linha e acabar passando para o spot, haverá o esvaziamento, pois essa operação implica na troca de uma moeda por outra, ou seja, vendemos dólar em troca de reais, euros ou qualquer outra moeda estrangeira. Falar em mudança na abordagem do BC em relação a intervenção é para inglês ver. Pretendem fazer o que? Congelar o dólar como foi feito na Argentina? Deixar que ele flutue livremente em um ambiente com fragilidade estrutural e conjuntural? O problema é operacional e não regulamentar.

Indo contra o propósito de união de forças, o documento criou uma polêmica imensa dentro do próprio PMDB e com aliados do governo. O documento ao menos enxerga e assume que o país está num momento crítico e que algo precisa ser feito, pois o tempo acabou e não podemos mais continuar na inércia esperando as mudanças que sim, têm de ser estruturais.

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Câmbio, Investimentos, Política
Com dólar mais caro, investidores estrangeiros desembarcam no Brasil
9 de novembro de 2015 at 16:48 2

investidores estrangeiros

Quando se fala em desvalorização do real, achamos muito ruim para o Brasil. Mas também há o lado positivo.

O valor do dólar não é determinante, mas tem um peso grande na decisão de investimento. Os investidores estrangeiros estão de olho nessa oportunidade de preços baixos. E está aumentando diariamente o número de investimentos no Brasil por causa do câmbio. Uma pesquisa mensal feita pela PwC Consultoria mostra que o movimento das fusões e aquisições no país aumentou e deve ultrapassar o de investidores brasileiros, em número de negócios, até o final do ano. Em setembro, a comparação está equilibrada, em 50% brasileiros e 50% estrangeiros.

Segundo a consultoria, não víamos um movimento desses desde 2010, quando tínhamos a perspectiva de crescimento da nossa economia. A diferença agora é que mesmo com a perspectiva de recessão, os estrangeiros estão enxergando a oportunidade e apostando nisso. O aumento das dívidas devido à alta dos juros e da queda da demanda de produção causa nas empresas a fragilidade financeira de que os investidores precisam, sendo essa vulnerabilidade enxergada como oportunidade para quem tem os recursos para investir. Como isso reduz o poder de negociação dos vendedores, os compradores barganham e chegam a preços muito atrativos.

Outro aspecto a se considerar é a possibilidade do Fed (Banco Central Americano) aumentar os juros em dezembro. Em um primeiro momento a moeda brasileira pode se desvalorizar um pouco mais, mas tende a se estabilizar após algumas semanas, o que permite a decisão de se investir ou não em países emergentes, como o nosso. E o Brasil vai interessar a muita gente, pois a alta dos juros e a desvalorização do real garantem um bom retorno aos investidores.

O Brasil está barato e para os fundos de private equity, que compram participação em empresas para vender no futuro com lucro, o momento é ideal. A volatilidade momentânea do dólar adiou um pouco os investimentos, mas agora o cenário está mudando e a insegurança é menor. Os bancos de investimento estimam que R$ 150 bilhões de ativos estão à venda no país.

Quem dera que os investimentos fossem feitos para impulsionar as empresas desde o começo, desde a concepção da empresa, mas infelizmente não é isso o que acontece. Pelo momento que vivemos, já é bastante interessante para o Brasil atrair empresas multinacionais e fundos de investimento que podem ajudar a fazer uma certa arrumação no setor produtivo que está sofrendo tanto.

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Juros, Política
Meta de inflação
6 de outubro de 2015 at 16:41 0

meta da inflação

O tema da inflação está ressurgindo nos debates econômicos. Os modelos discutidos pelas diferentes linhas de teorias econômicas, tanto a ortodoxa como heterodoxa, têm dado o tom das possíveis soluções para atual crise econômica. Qual seria o modelo ideal? Aumento de juros, controle cambial, diminuição de juros para aumentar a atividade econômica, aumento de impostos para fechar o orçamento e por aí vai.

 Nesse domingo uma economista chamada Monica Baumgarten, do Instituto Peterson de Economia Internacional, propôs voltarmos para o modelo de âncora cambial com âncora fiscal abandonando a meta de inflação, pois segundo a matéria podemos ter inflação na ordem de até 20% a.a. caso não consigamos arrumar a casa. Sem dúvida começam a aparecer as mais variadas teses econômicas e de diversas correntes, que só aparecem em função da incógnita sobre o futuro. Inicialmente vamos NÃO pensar nessa hipótese.

O modelo de target inflation, ou meta de inflação, é um modelo baseado nos instrumentos clássicos da política monetária através de juros, dívida pública e câmbio. Estes instrumentos que são utilizados pelo BC fazem o controle da demanda de consumo e são os indutores de expectativas projetadas no comportamento dos mercados, como maior ou menor liberdade de compulsórios de bancos para aumentar a base de crédito na economia, além de outras ferramentas econômicas de maior ou menor calibre, como também até mesmo o controle cambial quando se faça necessário. O nosso modelo era uma mistura dos dois: ortodoxo e o heterodoxo, sendo o BC fazendo o ortodoxo e o ministro Mantega o heterodoxo. Agora parece o modelo foi unificado com o Ministro Levy.

Realmente é difícil de imaginar que as coisas dessem certo em relação ao controle da inflação, pois não se combinam tanto na tese econômica como no resultado, porque a política econômica não tem uma grande efetividade no controle quando as portas do crédito são abertas por outras vias, principalmente por subsídios diversos e aumento considerável de estímulos de aumento de consumo.

Não existe vencido nem vencedor em teoria econômica, pois elas funcionam quando são aplicadas em momentos corretos. A teoria econômica mais ortodoxa serve para dar âncora ao desenvolvimento, se colocada em momento adequado.

O risco atual de termos um repique de inflação acima das expectativas ou das previsões é real, pois o fator do imponderável cenário político embute um risco de perda de eficiência da política monetária como política de controle.

Como assim? A maioria dos economistas acredita que a inflação deverá cair com o baixo consumo: além da queda da renda, o aumento do desemprego propiciam uma maior queda na demanda. Diria que este é um cenário básico e bem racional, caso as coisas se arrumem no campo político.

Necessariamente a baixa demanda não garante queda na inflação, basta ver a economia dos hermanos argentinos em que o tamanho foi reduzido a um terço do PIB ao longo dos anos de devaneio econômico da era Kirchner, mas a inflação real se mantém acima dos 20%, pela falta de elasticidade na demanda de consumo, além das restrições e das dificuldades da economia de mercado atuarem em contraponto ao aumento de preço. Tanto lá como aqui, somos das economias que mais protege as suas indústrias via Impostos de Importação e outras barreiras comerciais.

Os mercados já precificaram os juros e o dólar, mas ainda não a inflação, aí o IPCA, IGPM e outros indexadores poderão se tornar uma boa opção para efeito de investimento. Acredito que os juros deverão se manter ou subir na margem caso o cenário seja de controle da situação e do câmbio. Neste ponto as medidas ortodoxas poderão ter baixa eficiência em controlar a inflação via aumento de juros, sem gerar mais déficit e aprofundamento da recessão.

Eu penso que teremos tanto o IGPM como o IPCA surfando em índices parecidos com 2015, perto da casa de dois dígitos.  Os mercados trabalham com estimativa de 5,5% a 6% e a meta de inflação que o governo trabalha ainda está em 4,5% para 2016.

Todos os impostos, CPMF, CIDE, aumento de combustíveis e etc, de uma forma ou outra virão e são inflacionários, pois serão repassados aos preços finais. Máxi cambial + aumento de impostos = mais inflação. Tomara que a fórmula esteja errada.

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Câmbio, Política
Até onde vai o stress do dólar?
24 de setembro de 2015 at 17:32 0
dólar

A pergunta recorrente em todos os lugares que tenho frequentado é: a que preço vai o dólar? Realmente não é uma tarefa fácil prever a situação da moeda americana, mas alguns esclarecimentos poderão ajudar os amigos a parametrizar a situação da moeda:

Tecnicamente não há mais paridade alguma, pois saímos do campo econômico para o político e vice-versa. E aí as variáveis são as mais diversas. Para quem sabe e já passou momentos de crises cambiais e econômicas no stress, é jogar a máquina de calcular fora e transformar em feeling e interpretação dos momentos políticos e econômicos.

Adicionado ao stress do dólar, vem a corrida para qualquer operação cambial ficar atrelada a um hedge da moeda. Hoje importamos um volume considerável e acredito que o bom senso dos importadores fará um hedge, pois a volatilidade e a incerteza econômica poderão comer a margem dessas empresas.

O overshooting que estamos assistindo, sem dúvida, é uma somatória de tudo isso:

  • Hedge cambial para cobrir exposição de dívida em dólar;
  • Ajuste de mercado derivativo de Fundos;
  • Proteção patrimonial pelas grandes tesourarias de Bancos e grandes grupos com negócio no Brasil;
  • Aposta contra alguma solução política e econômica no curto prazo.

E por aí vai... tudo isso, misturado com o medo de não ter solução a curto prazo, faz com que o dólar caminhe para o céu e qualquer número é válido: R$ 4,50, R$ 5,00, tudo pode.

Como falei no artigo "Reflexões de um feriado", o dólar vai acabar impactando fortemente nos juros e consequentemente nas previsões de inflação.

O que pode conter esta crise cambial? A saída é simples: ela se chama "credibilidade", mas ao mesmo tempo está longe de ser alcançada, pois somente com ruptura política é que poderemos enxergar uma luz no fim do túnel. Os poderes estão, de certa forma, contaminados pelo ambiente da Operação Lava Jato e dificilmente cederão à tentação de deixar a crise esfriar, porque assim acabam se protegendo dentro do conceito de que “o mal maior abafa o mal menor” e o grau de aceitação dos delitos acabam sendo atenuados. Sempre foi assim.

Também estamos assistindo ao "mais do mesmo": loteamento de Ministério para compra de votos. A nossa presidente poderia apostar em uma melhor escolha, a nível mais técnico, como forma de mostrar que quer uma mudança verdadeira e não um apoio incondicional de alas do Congresso. Este é o ponto central, a palavra "credibilidade " está comprometida por completo.

A frase do dia para o toma-lá-dá-cá é: mais do mesmo.

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