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Câmbio, Política
Entre a realidade e a ficção eleitoral
5 de julho de 2018 at 15:56 0

Estas eleições serão, certamente, as mais imprevisíveis e emocionantes das últimas décadas. Além da imprevisibilidade total, algo raro, outro fator que torna esta eleição única é a importância que deverá ser dada, por cada um dos candidatos, ao projeto econômico de sua coligação. Será neste ponto que será possível fazer a diferença entre a ficção e a realidade de cada campanha.

O perfil e a história de cada um dos candidatos permite uma ideia do que esperar no campo econômico. A intensidade da crise vivida deu aos brasileiros a urgência da saúde financeira do país, e isso dá aos candidatos a certeza que não será qualquer meia dúzia de besteiras econômicas que convencerão o eleitor.

O nome e sobrenome do político não é mais garantia de voto, vide os baixos índices nas pesquisas de alguns deles. Há rejeição pela velha política. As pessoas querem ideias e propostas sólidas, principalmente no plano econômico: como e de que forma o candidato convencerá o eleitorado que sua proposta financeira é uma realidade, e não uma peça de ficção eleitoreira.

Nesta segunda-feira li uma entrevista do economista Paulo Guedes, o principal articulador econômico de Jair Bolsonaro, pré-candidato à presidência que desponta como a opção entre aqueles que buscam uma mudança na postura política, na forma de governar e no fisiologismo habitual dos noticiários.

Paulo Guedes demonstra de forma clara o limite entre o real e o intangível, já que Bolsonaro não assume qualquer risco político ao contrariar a imagem dele feita pelos eleitores, mesmo que isso não pertença ao programa econômico. É preciso ficar claro que um programa econômico é sempre uma obra autoral, pertencente ao mentor financeiro da coligação, e que ele sempre estará longe de ser um compromisso dos candidatos.

A entrevista coloca, na própria fala do mentor de Bolsonaro, uma série de dúvidas que ele mesmo tem em relação à capacidade de Jair Bolsonaro em assumir reformas necessárias e fundamentais para a política fiscal do país. Há também dúvidas quanto ao programa de privatizações, embora Guedes acredite no aval presidencial, caso Bolsonaro seja eleito, para dar cabo às privatizações. Há dúvidas quanto à assunção pública desses compromissos. Parece que não.

Ciro Gomes, apontado pelas pesquisas como alternativa viável, que já vinha acenando ao mercado com uma abordagem econômica mais moderada, deu uma guinada no discurso pró-esquerda, e agora se posiciona não só contra as privatizações, como também a favor de rever aquelas já realizadas, como os leilões da Petrobras. Ciro Gomes fala o que o mercado não quer ouvir, como “limite de gastos em juros é praticamente falar em tabelar”.

Esse é um discurso claramente montado para atrair grupos de eleitores, principalmente aqueles adeptos de um modelo classista com apoio estatal de programas setoriais, e não de modelos econômicos. Estes setores tendem à esquerda e ainda não adotaram nenhum candidato. É esta fatia do eleitorado que Ciro Gomes tenta conquistar.

A terceira opção é Marina Silva, que traz consigo um programa montado para acalmar os mercados, terá como maior desafio convencer os eleitores de maior escolaridade e os especialistas do setor financeiro quanto à viabilidade de seu plano econômico, visto com desconfiança. Muitos acreditam que Marina não tem perfil operacional, o que inviabiliza a implementação do programa econômico. Sendo assim, suas propostas ainda são classificadas como ficção.

Por último temos Geraldo Alckmin, que seria a tendência natural para manutenção de uma política econômica com rumo correto. Alckmin, que tem maior lastro administrativo e trajetória mais consistente, traz consigo Persio Arida, um grande economista com experiências no setor privado e na área pública. Este será o plano econômico com maior aderência à realidade mercadológica.

Por que então as pesquisas, e os eleitores, têm punido tanto Geraldo Alckmin? Acredito em dois fatores: o primeiro é o desgaste político do PSDB e o segundo é a personalização do que o eleitor acabou por rejeitar, que são as coligações partidárias e o toma lá dá cá. Há também a pouca exposição econômica dos méritos de sua administração, principalmente na defesa explicita de um programa reformista mas privatista, uma bandeira pétrea do PSDB. Ao não assumir posições explicitas e compromissos formais, como faz Bolsonaro, seu principal concorrente, Alckmin perde força junto ao eleitorado que busca um presidente que combaterá a criminalidade com tolerância zero.

A questão que fica é: até que pontos os programas econômicos tem capacidade para influenciar e impactar a decisões dos eleitores? Ficará o Brasil à mercê de devaneios econômicos como na era Collor? É certo que os programas econômicos e de governo terão mais atenção à medida que influenciam o cotidiano.

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Finanças, Política
Os mercados e as eleições – Parte 2
6 de junho de 2018 at 10:53 0

Falei em meu último artigo sobre a volta da volatilidade aos mercados. Esperávamos um viés de baixa na bolsa, causado pelo momento externo americano e a situação eleitoral brasileira. Os preços não refletem a realidade do cenário externo e isso teria rescaldo em nossa economia.

Só que tudo foi antecipado pela greve dos caminhoneiros. É necessário cautela e poucos movimentos direcionais, pois a chance de se errar agora é maior. A cautela é necessária pois a volatilidade atrai o capital de maior teor especulativo, principalmente junto aos grandes players, ou quem tem apetite para assistir e digerir prejuízos com maior naturalidade.

Os maiores vencedores serão aqueles que mantiverem posição neutra, isto é, com operações com componente de maior hedge ou mesmo com limites de perdas controladas pela maior liquidez de ativos. Por sinal, a liquidez também cobrará um preço e um bom médico financeiro recomendaria cautela com a segunda e a terceira linha de bolsa. Em momentos de estresse a liquidez desaparece.

Para não me repetir, sugiro a leitura dos meus artigos anteriores em que faço a relação entre economia e política. Eles mostrarão como as tendências de mercado serão dadas pelos boletins de pesquisas eleitorais. No campo macroeconômico externo, o principal fator de influência serão os Estados Unidos, já que se fizermos uma análise 360º do mundo veremos que a política Trump continua a ser a grande novidade e atua como trigger do mercado. Quanto mais o presidente americano se movimentar para implementar seu programa de crescimento e melhoria das condições do mercado interno, maior será a pressão do dolad nas moedas locais dos mercados emergentes.

A volatilidade e a volta da concentração do fluxo de investimentos na América são muito ruins. A proteção de capital em ativos menos voláteis e vulneráveis à piora doméstica começa a se tornar estratégica. Como o consumo interno não terá grande crescimento devido à queda do índice de confiança, uma boa alternativa para os investidores em bolsa é a mudança de capital para empresas exportadoras.

O câmbio deverá seguir pressionado até que a situação eleitoral brasileira se mostre mais clara. Uma super desvalorização é improvável, mas a incerteza poderá funcionar como combustível para piora do cenário interno.

Pontos de atenção:

  • O governo é frágil e demonstrou isso cedendo às demandas feitas pelos caminhoneiros;
  • Fluxo cambial desfavorável e com política intervencionista, que controla os fluxos desfavoráveis e aumentam o pessimismo;
  • A situação econômica ruim é boa para os candidatos de extrema esquerda e extrema direita, conforme exposto em meu último artigo;
  • Interrupção no ciclo de baixa do juros e possível viés de alta;

O cenário internacional também deve contribuir com a turbulência brasileira. A zona do Euro terá a Itália como novo protagonista nos noticiários, já que as eleições acenderão novamente a questão da política econômica ortodoxa, com controle do déficit e manutenção de estabilidade em detrimento do chamado bem-estar social. Isso fará com o que debate sobre a saída de alguns países da zona do Euro reacenda. A Grécia é sempre uma lembrança.

Tivemos grandes avanços econômicos, dentre eles a reforma trabalhista, mesmo com um presidente campeão da impopularidade e com pouca margem de manobra. A situação política traz o ceticismo quanto à viabilidade das reformas mesmo após as eleições, afinal o desgaste da classe política dará ao futuro presidente pouca margem de manobra para implementar as reformas estruturais que o país precisa.

O Brasil deverá crescer 2% este ano, já que o ano político econômico acabará este mês. O segundo semestre estará reservado à Copa do Mundo e eleições.

Apesar de todas essas questões, o cenário brasileiro ainda é positivo e as conquistas deste governo em relação ao controle da inflação e ao juro baixo são inegáveis.

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Finanças, Política
Os mercados e a eleição presidencial brasileira
14 de maio de 2018 at 16:00 0

Os mercados dão sinais claros que os tempos fáceis acabaram. Daqui para frente o grau de incerteza tende a aumentar consideravelmente, o que elevará a volatilidade consequentemente.

Pressionado por vários motivos e variáveis que poderão impactar em seu preço, o dólar americano já deu a cara de como vai começar a se comportar. A cotação do dólar oscila por diversos motivos, como as variáveis externas que fogem ao controle brasileiro. É o que está acontecendo atualmente já que a política de Donald Trump tem afetado as economias emergentes.

Uma das promessas de Donald Trump foi valorizar a indústria americana. Com isso, políticas protecionistas foram implantadas nos EUA, o que certamente tem contribuído para o aquecimento da economia norte-americana. Pesa também a redução de impostos corporativos com maior controle da inflação, o que consequentemente gera maior expectativa no aumento da taxa de juro americana. Estes fatores por si só já têm capacidade de apreciar o dólar, consequentemente desvalorizando as moedas emergentes.

Uma das economias que têm sofrido com isso é a argentina, nem tanto pelo efeito externo, mas pela anemia de sua economia, combalida desde os anos 2000. Ajustes fiscais e econômicos foram feitos na Argentina, mas muito ainda precisa ser feito para que os hermanos consigam sair da armadilha inflacionária. Para se ter uma ideia, a expectativa de inflação oficial foi revista de 15% para quase 25% a.a, e a taxa de juros que aqui no Brasil está em 6,25% foi a 40% na Argentina.

Diferentemente do Brasil, a Argentina não possui uma grande reserva cambial que sirva de firewall aos ataques especulativos. Isso fez com que os argentinos pedissem um empréstimo de mais de US$ 30 bilhões ao FMI, contrariando uma promessa de campanha do presidente Mauricio Macri. Além da Argentina, Turquia, Rússia e Brasil agora sofrem com a desvalorização de suas moedas em um efeito que se estenderá por todos os emergentes. O grau de impacto deverá variar de acordo com a confiança externa e a solidez de cada nação. 

O mercado está otimista em relação ao Brasil, e isso me preocupa. Embora com taxa de juro historicamente baixa e inflação no piso, não podemos imaginar um cenário onde o Brasil volte a surfar em céu de brigadeiro, como foi durante a crise global de 2008. Qualquer análise deve sempre levar em conta o cenário interno, mais especificamente o eleitoral, que certamente impactará a economia a depender do eleito e da base partidária que o acompanhará.

Dentre os candidatos viáveis, podemos traçar as seguintes hipóteses:

Uma vitória da centro-direita com Alckmin, Álvaro Dias, Flávio Rocha ou Henrique Meirelles trará poucas mudanças na política econômica. Neste caso teremos uma manutenção do cenário financeiro, com dólar abaixo dos parâmetros já antes da eleição e juros no patamar atual. Isso se deve à crença do mercado na manutenção das reformas econômicas, o que segurará o dólar estável, juro baixo e bolsa em alta.

Caso a centro-esquerda vença com Ciro Gomes, um candidato do PT ou Marina Silva, que se posiciona um pouco mais ao centro, teremos maior indefinição econômica. A tendência pela suspensão das reformas e incerteza de cenários pressionará o dólar que, com a taxa de juro indefinida, fará com que a bolsa entre em queda.

Candidato de extrema-direita líder das pesquisas atuais, Jair Bolsonaro fará os mercados reagirem com bastante volatilidade em caso de vitória. Tudo dependerá da equipe econômica escolhida por ele e qual base eleitoral sustentará seu governo na Câmara e no Senado. Assim como Ciro Gomes, Bolsonaro será questionado pelo mercado por suas políticas na economia e na área social. Neste caso, o dólar deverá extrapolar os preços habituais e o juro deverá subir ligeiramente, em uma tentativa de segurar a especulação no dólar.

Levando todas essas alternativas em consideração, caso tivesse que decidir hoje por um curso de ação eu ficaria fora da bolsa, neutro na questão do juro, ou levemente comprado, e com maior posicionamento no dólar. Não é possível avaliar um cenário de curto prazo com grandes ou pequenos ganhos na compra em bolsa ou juros.

Há pouco para se ganhar e muito para se perder, apesar dos fundamentos financeiros do Brasil ainda estarem estáveis.

E lembre-se do velho ditado, eu sou você amanhã, hermano.

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Política
O baralho eleitoral do Brasil e o cenário possível durante eleições
23 de abril de 2018 at 17:21 0

Uma eleição é como um jogo de baralho. No certame presidencial brasileiro deste ano, a partida será jogada com diversos "decks" de cartas. O quadro eleitoral é incerto graças às complicações jurídicas vividas pelos partidos, pela nova legislação eleitoral e o número de candidatos novos, que oxigenam a disputa.

Do ponto de vista econômico, as novas regras de financiamento de campanha trazem mudanças importantes. Além da imposição de um limite de gastos às campanhas, há também restrição de quem pode fazer as doações e até como as campanhas de televisão podem ser feitas. 

A coisa complica também quando se olha o lado humano. A inviabilização de candidatos tradicionais e consolidados, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e os senadores Aécio Neves e José Serra, abre caminho para a entrada de novos atores à cena. São candidatos que representam uma multitude de espectros políticos, da esquerda à extrema-direita. Essa pluralidade de candidatos torna a eleição mais complexa, já que haverá muita mudança de intenção de votos entre candidatos do mesmo espectro político.

Tendo em vista este cenário, podemos empregar uma análise lógica. Não considerarei a candidatura de Lula, já que a tendência é que ele permaneça inelegível, o que torna a análise mais complexa, já que caso Lula concorresse, seria natural que todos os candidatos se alinhassem contra ele. Sem o ex-presidente o confronto será de todos contra todos. E isso adiciona um novo conjunto de cartas ao baralho.

Existem duas grandes forças em disputa: de um lado a esquerda e centro, e do outro a direita. 

Na centro-esquerda o destaque é Geraldo Alckmin, que oferece ao eleitor um currículo eleitoral com 14 anos de mandato como governador de São Paulo. A complexidade do maior estado da federação, e também a riqueza dele, dão solidez à campanha no quesito realizações e conquistas. Destaca-se a questão da segurança pública, como abordei no artigo anterior, a realização de obras e a administração do orçamento. Em comparação com os outros estados, São Paulo se saiu bem na crise econômica de 2014. Alckmin já disputou o cargo em 2006, o que lhe trará recall. Além disso, ele terá dois candidatos ao governo em São Paulo puxando voto para sua candidatura: Márcio França e João Dória. 

Apesar desses pontos a favor, Alckmin ainda não decolou nas pesquisas. Pesa também o aumento da rejeição ao partido devido às acusações contra Aécio Neves, embora Alckmin tenha passado ileso pela Lava-Jato.

Os demais candidatos do bloco que à esquerda ainda não decolaram, estão atualmente tentando tornar suas candidaturas viáveis. Entre eles encontram-se personalidades sem cunho partidário, mas com poder de conquista em segmentos diversos da sociedade, como o ex-ministro Joaquim Barbosa e o empresário Flávio Rocha. Ciro Gomes e Marina Silva, por exemplo, ainda não se posicionaram nacionalmente como candidatos. Além disso, a presença de dois candidatos de renome na esquerda pode acabar esvaziando as urnas dos dois.

A grande incógnita será a postura do Partido dos Trabalhadores nesta eleição. Jacques Wagner e Fernando Haddad, dois nomes ventilados pelo partido, não conseguem sequer atrair o voto do ex-presidente Lula. Com seu principal candidato inviabilizado, o PT terá como missão manter o cacife eleitoral da legenda, essencial na negociação de alianças. As cartas nos naipes do primeiro bloco, de esquerda e centro, estão se movimentando tentando abocanhar parte do eleitorado petista, órfão de um candidato viável.

No lado à direita do campo, Jair Bolsonaro enfrenta um problema oposto ao de Geraldo Alckmin. Sobra ao deputado carisma e intenção de voto, mas falta conteúdo administrativo e de gestão, já que Bolsonaro nunca ocupou nenhum cargo executivo. A inexistência de bandeiras é um dos principais problemas de Bolsonaro, que perde credibilidade eleitoral junto ao eleitor com maior índice de escolaridade e renda, parte importante do voto avesso à esquerda. 

Com a prisão de Lula e a entrada de novos candidatos no jogo, o candidato do PSL tem como maior desafio a consolidação do voto que, aparentemente, já é seu. Mesmo com todos esses poréns, Bolsonaro já é um candidato viável e estabelecido, ao contrário de boa parte dos pré-candidatos que aventaram candidatura. No pior dos cenários, Jair Bolsonaro é forte candidato ao segundo turno, algo ainda distante a grande parte dos outros candidatos.

Contra tudo e contra todos, entretanto, restam as “Fake News”, que devem dominar o cenário graças à leniência da legislação brasileira, que falha em coibir e punir veículos que divulgam notícias falsas, caluniosas ou tendenciosas. Jair Bolsonaro, por ser polêmico, deve ser uma possível vítima desse expediente, além de outros candidatos que se aventurem por temas mais polêmicos.

O candidato que se posicionar ao centro terá vantagem na disputa, basta para isso uma melhora no da economia. O número chave é 2,5% de crescimento do PIB. A história e as estatísticas mostram que o discurso do centro ganha adesão com melhor ambiente econômico, enquanto a direita e a esquerda dependem de um cenário econômico ruim para ganhar força. São os votos da mudança e, se está bom para todos, a mudança deixa de ser atrativa.

A partida de baralho está apenas começando, e quanto mais tentamos enxergar a mesa, mais embaralhadas e confusas ficarão as cartas. É preciso esperar que as cartas sejam jogadas, dentro e fora do baralho, para que possamos ver, de antemão, qual surpresa nos aguarda nesta eleição.

Será um verdadeiro jogo de cartas.

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