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Saul Sabba

Outros assuntos, Política
Modernizar para sobreviver: o dilema do Brasil
27 de março de 2017 at 15:35 0

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O momento econômico é bastante favorável ao Brasil até porque todas as previsões econômicas continuam sendo otimistas principalmente quanto ao aspecto da inflação que teve como principal vitória a quebra da inércia dos preços administrados, o que mostrava o acerto na persistência em romper este ciclo, tornando factíveis as previsões de queda de juros. Apesar disto, não podemos simplesmente creditar todos os bonos à equipe econômica do governo, pois a retração causada pelo mal gerenciamento das contas públicas deixou o consumidor com uma baixa capacidade de pagamento de suas suas próprias contas, o que faz com que a economia real se torne anêmica e aumente ainda mais o índice de desemprego.

Realmente a confiança esta voltando e uma das causas, sem dúvida é a queda da inflação e a queda anunciada de juros que vai ajudar na retomada da economia. As reformas que estão em pauta como a da Previdência e a Trabalhista, além das discussões sobre a desburocratização e muitas outras. Estas reformas tem tido uma atenção especial das duas casas, tanto do Senado quanto da Câmara do Deputados. Por que agora as reformas passaram a ser tão importantes?

As reformas são o principal fator de melhora de ambiente macroeconômico e, consequentemente, de melhora de expectativas futuras, o que gera um ambiente bastante benigno para os investimentos, tanto locais como estrangeiros. A equação para retomada da economia real passa pela necessidade de voltar a um patamar mínimo de investimentos para que se quebre a inércia gerada pela crise nos vários setores da economia.

Essa agenda agora passou a ser tão importante para os políticos em geral porque a melhora da economia vai influenciar o momento político de 2018. Sem dúvida a maioria dos futuros candidatos à reeleição veem na melhoria da atividade econômica e diminuição do desemprego a boia de salvação do atual governo e de seus mandatos. As pessoas tendem a ser mais tolerantes em um ambiente econômico mais favorável e nossos políticos sabem disso.

Acho que estamos diante de um momento altamente propício a ter efetivos ganhos institucionais com as reformas e gerar uma visibilidade externa positiva em face das reformas propostas. O grande unificador dos maiores partidos em torno de reformas será a continuidade da "Lava a Jato" que joga uma pressão maior na classe como um todo. Fazer essas reformas não deve ser uma medida para retirar o foco de atenção dos escândalos, porém a pressão sobre nossa economia diminui e poderemos entrar mais rápido em um ciclo de melhora. A tendência é que a aprovação do modelo adotado pelo governo Temer aumente e gere bônus para a eleição de 2018, até porque desmonta definitivamente os argumentos petistas de golpe e além disso, tanto PMDB como o PSDB voltariam a ganhar algum fôlego eleitoral para o próximo ano. Sem duvida nenhuma as reformas nunca sairiam por vontade espontânea política, principalmente em um ano que antecede as eleições presidenciais e estaduais.

Reformar leis consolidadas já há mais de meio século é um grande passo, porém o nome já contextualiza a questão, uma vez que tudo na vida precisa de ajustes com o passar do tempo. Nossa casa, empresas e até mesmo os nossos hábitos também demandam mudanças de tempos em tempos, pois sem isto tendemos a ficar literalmente velhos e obsoletos. Em um país como o nosso, em que muitas das legislações – especialmente a previdenciária e a trabalhista -  foram estabelecidas há muito tempo, é preciso se readaptar dentro de uma nova realidade moderna e contemporânea.

No caso da Previdência, o ponto central é a idade mínima de 65 anos. Se compararmos quando foi elaborada a Lei da Aposentadoria, a expectativa de vida da população era outra, talvez uns 20 anos a menos. A contestação de direito adquirido e intocável não faz nenhum sentido sob este ponto de vista. Fazer reformas de verdade, no entanto, mexe com direitos que as pessoas consideram imutáveis e é assim que é apresentada questão por aqueles que são contra a reforma.

É preciso contextualizar o assunto e lutar por uma reforma que possa reconstituir um sistema que seja compatível com dias de hoje, até porque, se não o fizermos, as instituições não serão capazes de suportar as despesas recorrentes causadas pelo envelhecimento da população. Os investimentos serão diretamente proporcionais às reformas que fizermos e são ponto fundamental para que os recursos retornem e comecem a gerar novos empregos, para que nao tenhamos uma geração de filhos pobres com avós e pais ricos - que é o que hoje começa a se desenhar no seio familiar, em que muitas vezes a renda do filho classe media é pior que a dos pais aposentados.

Por fim, o Brasil tem agora uma oportunidade ímpar de se reorganizar com estas reformas e caminhar para termos uma possibilidade real de uma nova década virtuosa.

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Finanças, Juros, Política
Inflação e Deflação – Impactos na economia do país
15 de março de 2017 at 12:43 0
O desejo de todos os brasileiros de que a inflação diminuísse veio melhor que o esperado, com o anúncio de que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) de fevereiro ficou em 0,33%, a menor taxa em 17 anos, e trouxe o acumulado dos últimos 12 meses para 4,76%, ou seja, a inflação está a caminho da meta. Os dados foram divulgados pelo IBGE na semana passada. O consumidor aos poucos sente a melhora nos preços e o impacto no custo de vida. A alta nos gastos com educação, apesar de corresponderem a cerca de 70% da taxa geral do mês, são os menores desde 2010. A alimentação teve deflação de 0,45%, bem como transporte aéreo (12,29%) e vestuário (0,13%). O último Boletim Focus reduziu ainda mais a estimativa da inflação para 2017, agora na faixa dos 4,19%. Talvez esse seja o empurrão que falta para que o Comitê de Política Monetária – COPOM, baixe os juros de maneira mais agressiva para influenciar mais significativamente a economia, barateando o crédito e incentivando a produção e o consumo. A expectativa para o ano é que a SELIC fique em 9,52%, mesmo com a última reunião não tendo o corte esperado, mantendo a taxa em 12,25%. É preciso aguardar, pois sabemos que em economia nada é gravado em pedra. Se analisados individualmente, esses indicadores podem não fazer sentido para grande parte da população, porém nos ajudam a formar uma visão mais ampla do cenário. Por exemplo, no final de fevereiro o IBGE divulgou que a taxa de desemprego é de 12,6%, a maior desde 2012, e todos sabemos que sem dinheiro, as pessoas consomem menos, fazem menos compras no crediário e colocam pé no freio dos financiamentos. É um ciclo vicioso: o custo de vida ainda está alto, com juros exorbitantes, desemprego e muita dificuldade de recolocação profissional. Tudo isso gera a falta de consumo de produtos e serviços e fazem com que empresas demitam os funcionários que, por sua vez, também deixarão de consumir, mesmo com preços baixos e promoções – que são os valores em queda registrados pelo IPCA. É deflação. A tão esperada deflação é algo que, se não acontecer, tende a causar problemas tão ou mais graves que a inflação altíssima que estamos enfrentando. Parece estranho afirmar isso, mas a oscilação nos preços é apenas a ponta de um sistema que produz bens, oferece serviços e depende do consumo para sobreviver. Ainda há muito trabalho a ser feito, as variáveis para contenção da crise mudam diariamente e garantir emprego e renda para uma população do tamanho da nossa não é tarefa simples. Mais uma vez a bola está na arena política, com as discussões sobre a Reforma da Previdência e a contenção dos gastos do governo. Seguimos observando.
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Bolsa
Brasil pós-carnaval: perspectivas boas para economia
8 de março de 2017 at 11:04 0

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Março começou cheio de notícias com potencial de modificar o panorama econômico mais uma vez. A semana curta e meio morta depois do Carnaval ficou bem agitada para o observador econômico, como notícias do Banco Central, Mercado Financeiro, FED e Balança Comercial.

Certamente a mais importante é a projeção da redução da taxa SELIC para a faixa de 9,25% ao final de 2017 por analistas do mercado financeiro, resultado da estabilidade de 4 semanas da taxa. Já o Comitê de Política Monetária – COPOM, avalia que o cenário é favorável e que há possibilidade de desinflação, com meta do IPCA em 4,5% para 2017 e 2018.

Esses números são estimativas e sempre baseados no comportamento das economias em época de crise. Por exemplo, se os preços não aumentam, a inflação tende a diminuir e o consumo a aumentar. Os analistas já estimam que o crescimento da economia fica 2,37% para 2018 e o dólar cai de R$ 3,40 para R$ 3,37.

Parece cedo para apresentar essas estimativas para 2018 e até 2019 em alguns casos, mas essas previsões são fundamentais nas tomadas de decisões. De forma prática, as informações são essenciais na escolha de um investimento pré ou pós-fixado, por exemplo.

Nos Estados Unidos os anúncios do FED também são importantes pois divulgam dados da atividade econômica americana e como isso pode afetar o restante da economia mundial. A expectativa é de alta de juros, especialmente se o presidente Trump implementar algumas medidas anunciadas no discurso ao Congresso americano no último dia 28.

O superávit da balança comercial brasileira de US$ 4,56 bi em fevereiro é recorde para o mês, desde 1989, e resultado do aumento das exportações de semimanufaturados e manufaturados. A projeção de queda do dólar tende a aumentar a demanda por produtos brasileiros, aumentando também os postos de trabalho e fazendo girar a economia. Talvez não seja ainda resultado direto dos dados a serem anunciados pelo FED, mas com as exportações brasileira já estão aumentando.

As notícias mostram que os caminhos estão se alinhando para nós, brasileiros. Que nós saibamos caminhar na direção certa e tomar as melhores decisões, aproveitando o momento que, se não é totalmente favorável, com certeza pode é bem melhor que neste mesmo período do ano passado.

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Investimentos, Política
O que está por trás das mudanças do FGTS
21 de fevereiro de 2017 at 16:15 0

A notícia que o governo liberou o saque de contas inativas do FGTS não foi surpresa, afinal os debates sobre mudanças no fundo vêm ocorrendo há vários meses, atraindo a atenção dos trabalhadores brasileiros. A Medida Provisória 763/2016 liberou o saque das contas inativas vinculadas a contratos vencidos até 31 de dezembro de 2015 e também elevou a rentabilidade por meio da distribuição dos lucros.

Engana-se quem acredita que é apenas um pacote de bondades, como o que temos visto nos últimos anos nos últimos governos. A liberação do saque faz parte de um conjunto de medidas que tem o objetivo de fortalecer a economia brasileira, que ainda patina. Todos sabíamos que a recuperação não seria fácil, mas temos visto um esforço genuíno do governo atual em fazer o Brasil crescer novamente.

A questão do saque do FGTS é um exemplo claro desse esforço, já que a liberação desses valores tem potencial para injetar mais de RS 30 bi na economia. A maior parte desses saques são de valores até um salário mínimo e que, embora pareça pouco, pode ser o suficiente para o pagamento de dívidas que permitam que o trabalhador volte a consumir.

A outra mudança importante é a rentabilidade que o FGTS vai oferecer ao trabalhador, que irá se aproximar de 6% mais a TR, resultado da distribuição dos lucros. É uma mudança importante, já que o fundo vem acumulando perda de rendimento e chega a ter um rendimento pior que a poupança – em 2016, por exemplo, não chegou a recompor a inflação anual.

É importante verificar, como a mudança na regra da remuneração impacta no setor de infraestrutura. O FGTS é utilizado pelo governo para investimentos em obras de infraestrutura básica, saneamento, imobiliários e outros, e nós sabemos que estamos diante de um grave problema de confiança no segmento, com o envolvimento das construtoras na Operação Lava-Jato.

Outra grande mudança no Fundo de Garantia é a liberação dos recursos do trabalhador para a aplicação em imóveis de maior valor, até R$ 1,5 mi. Especialmente nos centros urbanos, essa medida tem uma consequência muito boa, no sentido de ajudar a reduzir os estoques imobiliários. As construtoras, por sua vez, são forçadas a construir novos empreendimentos de alta renda e reabrir os quase 780 mil postos de trabalho encerrados nos últimos anos.

De modo geral, acredito que é uma boa medida recompor o poder de compra dos brasileiros para estimular o consumo e o investimento. O governo espera que o ano de 2017 se encerre melhor que 2016, com mais brasileiros empregados e mais dinheiro circulando. Depois de tanto tempo em recessão, um pequeno respiro é bem-vindo para todos nós.

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Bolsa
Solução à vista!
7 de fevereiro de 2017 at 16:00 0
2017-02-07-SaulS-SocialMedia-FB_v2   O início de fevereiro marcou o início de um período com sinais otimistas para o mercado, que considera as variáveis favoráveis para a resolução da crise de liquidez pela qual passamos. Com a queda de 0,75% na taxa de juros, a inflação sinalizando ficar dentro da meta de 4,5% e a possibilidade do governo emplacar a reforma da Previdência, as coisas poderão melhorar mais rápido do que imaginamos. O mercado é cíclico e embora as crises não sejam iguais, é possível aprender com as situações do passado. Vivemos hoje uma crise de liquidez de ativos, especialmente no mercado de infraestrutura, agravado pelos desdobramentos da operação Lava a Jato. O consumidor está altamente endividado por uma política de crédito que não garantia a manutenção do pagamento e os estoques imobiliários são os maiores em muitos anos. Se compararmos a crise brasileira à chamada Crise Americana dos Mercados de 2009, acabamos vendo contornos bastante similares. Naquele ano a bolha de ativos imobiliários dos Estados Unidos foi rompida e causou um efeito cascata, se alastrando rapidamente para vários outros mercados. Em um sistema altamente alavancado por crédito, a perda da capacidade econômica dos consumidores causou a destruição da riqueza e da poupança em geral, exatamente como assistimos em filmes e livros que retratam aqueles dias. A alta alavancagem de mercados via instrumentos derivativos formaram uma perda de capital de tal magnitude que o consumidor americano passou a comprar em outlets e atacadistas, enquanto os latinos e turistas frequentavam shoppings e na Bloomingdale's. Passaram-se ainda quatro anos para que os consumidores voltassem a reativar a economia devastada. Obviamente, dado o contexto econômico e o destaque dos países no cenário internacional, as instabilidades americana e brasileira estão longe serem iguais, entretanto adquirem contornos semelhantes quando analisamos o conteúdo. Aqui no Brasil a Operação Lava a Jato paralisou todo o segmento de infraestrutura que estava contaminado pela corrupção, consequentemente criando uma crise nos ativos ligados ao setor. São concessões e contratos que não se conseguem assumir e cumprir em diversos ramos: estradas, energia, petróleo, telecomunicações e muitos outros. Considerando apenas o setor de infraestrutura, veremos que os números estão na casa das dezenas de bilhões. O outro aspecto essencial, esse sim bastante semelhante ao exemplo americano, se refere à política de crédito imobiliário estabelecida pelo governo petista, sem base sólida e concedido como benesse política. O programa Minha Casa Minha Vida ofereceu crédito e outros benefícios de forma abundante ocasionando o alto endividamento do consumidor, tornando o sonho da casa própria em uma fonte de dívida e acarretando o aumento nos estoques em níveis nunca atingidos anteriormente, em razão do aumento dos distratos - o encerramento do contrato de venda com a devolução dos imóveis. Ativos de ambos os segmentos, imobiliário e infraestrutura, estão à venda por todo o Brasil. A queda da taxa de juros, aliada à reforma trabalhista e previdenciária pode ser o gatilho para o retorno do investimento estrangeiro ao nosso país. Sabemos que a velocidade no retorno do crescimento econômico tem relação com a volta da liquidez dos ativos imobiliários e de infraestrutura. Não foi à toa que o governo americano, via FED, deu liquidez a estes ativos com programas especiais de compras, para que o sistema fizesse uma reoxigenação e voltasse a emprestar novamente. Nosso caso é um pouco diferente pois não existe securitização altamente alavancada por este tipo de derivativos, porém temos muitos títulos à venda no Brasil e se houvesse algum programa de estímulo, e não de subsídio, poderíamos voltar com maior velocidade para gerar capacidade de investimentos e voltar a estancar a alta do desemprego que deve caminhar para 13% em 2017. No momento toda reestruturação de empresa governamental passa por venda de ativos da Petrobras, Eletrobrás e muitas outras empresas, além de um grande encalhe no setor de construção imobiliária. Baseado em minhas observações econômicas, tenho convicção que estamos passando por uma crise sistêmica de liquidez de ativos de várias ordens de grandeza, tendo como consequência a obstrução a médio prazo da retomada do crescimento. Enfim, encontrar comprador é a ordem do momento e nós temos os estímulos necessários - a LIG, Letra Imobiliária Garantida, que está sendo normatizada e poderá a ser mais um instrumento de estruturação financeira. Basta apenas a coragem para fazer acontecer.
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Outros assuntos
O que podemos concluir na retrospectiva econômica de 2016?
23 de dezembro de 2016 at 15:49 0

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Já era esperado que 2016 seria um ano difícil economicamente, depois de tanta tensão acumulada no processo do impeachment que se arrastou em 2015. O interessante é que o ser humano mantém a esperança e o ano novo renova este sentimento de uma maneira curiosa: as nossas expectativas são reajustadas de acordo com as possibilidades do novo ano e não como resultado de todas as decisões que fizemos no anterior.

O circuit breaker da bolsa chinesa logo na primeira segunda feira de 2016 foi, entretanto, um choque de realidade. Todo o mundo foi afetado e pego de surpresa pelo inédito encerramento das atividades da Bolsa de Valores da China, que acarretou queda da BM&FBovespa e disparou o dólar para acima dos R$ 4,00. Como se essa notícia não fosse o bastante, logo em seguida o governo brasileiro acabou com a isenção fiscal para despesas educacionais, hospitalares e de serviços turísticos no exterior.

Até a conclusão do impeachment o Brasil sofreu as piores perdas de credibilidade na economia. A recusa do governo em assumir a gravidade da crise sofreu um baque quando a Moody’s cortou dois níveis da nota brasileira e passou a classificar o Brasil como “junk”. Perdemos o grau de investimento e com ele a credibilidade, mas, especialmente, o capital.

O impeachment foi a grande reviravolta que o Brasil sofreu em 2016. A quebra no poder foi dramática em todos os sentidos, especialmente na nossa política econômica. O Governo Dilma protelou em admitir a crise, em executar medidas que a contivesse ou mesmo em planejar a recuperação do país. Temer assumiu com o compromisso de executar as reformas fiscal, previdenciária e conter os gastos públicos em um dos piores momentos políticos pelo qual o país já passou.

A sensação de confiança do mercado, entretanto, deu os sinais positivos que o governo precisava para iniciar com a chamada PEC do Teto e, com isso, criar sua primeira grande crise.

Não é de se espantar que o país fervilhou nesse período. A internet e as redes sociais amplificaram a mudança do comportamento dos cidadãos e mostraram que o eleitor tem exigido participar dos processos políticos. A nova geração não apenas compartilha informação e promove manifestações através dos aplicativos, mas eles modificaram a maneira de se relacionar com o mundo e fazer negócios em 2016. As redes tradicionais de televisão, por exemplo, se sentiram ameaçadas pelo Netflix e, ao mesmo tempo que fizeram mudanças para atrair o consumidor, pressionaram o plenário para proteger os interesses do segmento.

É interessante notar como é a tecnologia quem vem mostrando que o país só perde pela maneira como alguns segmentos econômicos são estruturados no Brasil. O próprio sistema bancário é alvo de análises nesse sentido, já que a alta concentração tem sido acusada de ser a grande responsável pelas dificuldades na obtenção de créditos. Repensar o sistema bancário, com desintermediação bancária e facilitação de levantamento de capitais pode ser uma alternativa à crise e que acompanha a evolução da sociedade nos últimos anos.

O Novo Mercado da Bolsa de Valores também sofreu algumas reformulações em 2016. Foram medidas importantes que protegem os minoritários, uma bandeira que carrego desde o início da minha carreira, pois acredito que dá credibilidade ao mercado. As questões de governança corporativa estão muito em alta no momento e precisam ser debatidas com seriedade e cautela, não apenas por motivos midiáticos. A Bolsa brasileira ainda precisa muito evoluir, especialmente no mercado de balcão. O ano de 2016 mostrou que a economia da tecnologia tende a crescer e necessita de uma Bolsa que atenda suas especificidades.

Como dizem os nossos jovens, 2016 chegou na season finale. Foi um ano agitado, intenso, acelerado, mas parece ter cumprido o seu propósito: chacoalhou as coisas, mexeu com as pessoas, acordou o país. Como bom brasileiro, vou olhar para 2017 com as possibilidades que ele nos traz. Um novo, em branco, para ser escrito com a sabedoria que 2016 nos deu.

Feliz ano novo!

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Outros assuntos, Política
Desigualdade de gênero no mercado de trabalho
8 de dezembro de 2016 at 09:58 0

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O tema da desigualdade de gênero no mercado de trabalho é espinhoso não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Desde países onde a economia está mais avançada aos mais pobres, a diferença no tratamento das mulheres em relação aos homens é uma questão que deve ser debatida com atenção especial. A economia mundial agradece, eu explico por que.

A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do Brasil, Pnad, mostrou que as mulheres são 51,4% da população e respondem pelo sustento de 37,3% das famílias. O IBGE estima que elas ainda têm, em média, cinco horas semanais de trabalho a mais - e não contabilizadas - que os homens, referentes aos trabalhos domésticos. Mesmo assim, ganham menos que os homens e ocupam menos posições de chefia (apenas 7,4%, segundo a FGV).

Se continuarmos no mesmo ritmo, estima-se que as coisas ainda demorarão muito a mudar: os salários só serão os mesmos em 2085. Apenas em 2213 teremos 51% de altas executivas, a mesma proporção de mulheres na população em geral. Na política, as vagas serão proporcionais em 2083 no Senado, em 2160 nas Câmaras Municipais e 2254 na Câmara dos Deputados.

Mesmo em países mais avançados existe essa discrepância. Os EUA estimam que ainda demora 40 anos para uma taxa de ocupação igualitária em altos cargos executivos. Para um efeito mais imediato, Suécia e França estipularam cotas em conselhos e o Reino Unido fez uma grande campanha para que governo e corporações firmassem compromissos públicos.

Essa desigualdade cobra um alto preço. As mulheres tomam a maior parte das decisões no orçamento doméstico, logo, é natural que um orçamento maior e mais independência reflitam diretamente em toda a economia do país. Além da correlação entre o PIB e a igualdade salarial, a qualidade dos gastos melhora, uma vez que os investimentos preferencialmente escolhidos por elas são na área de saúde, educação, segurança e bem-estar.

Horários flexíveis, ampliação na rede de cuidados infantis (berçários, creches, escolas de tempo integral) e ações no sentido de qualificá-las para o empreendedorismo são algumas medidas que podem valorizar e promover maior presença das mulheres no mercado, além de beneficiarem todos os colaboradores. Proporcionar a construção dessas carreiras é uma das metas do Fórum Econômico Mundial. É interessante ver como esse ingresso no mercado modifica a qualidade do ambiente de trabalho e de toda a sociedade.

Já o mercado financeiro é uma área muito competitiva. Para as mulheres, especificamente, construir uma carreira nesse meio é questão de talento e também oportunidade. Tenho orgulho de ser CEO de uma empresa que conta com mais de 40% dos cargos de chefia ocupados por mulheres e seria demagogo da minha parte não utilizar esse conhecimento.

Nosso segmento privilegia a performance e consistência na execução de processos, portanto a capacitação e inteligência corporativa colocam essas mulheres em posição privilegiada, com mais poder do que imaginamos. Elas vêm conquistando cada vez mais espaço nas corporações e no mercado de trabalho como um todo. Ainda bem!

Há muito o que melhorar nesse sentido. A BM&FBovespa divulgou em novembro a 12ª carteira do ISE e apenas 50% das empresas conta com uma ou mais mulheres participando efetivamente em seus Conselhos de Administração – número menor que em 2015. Devemos, entretanto, destacar que 81% das empresas do índice acredita que é importante alcançar a igualdade de gênero.

O tema, felizmente, avançou do discurso social para o campo econômico e, como sabemos, o dinheiro fala alto. Investir nas líderes é mais do que usar o discurso feminista, é abrir caminho para uma gestão que beneficie a todos igualmente, gere lucros e melhore a reputação da empresa. Apostem nisso!

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A Teoria do Copo Cheio
2 de dezembro de 2016 at 17:55 0

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Existe uma teoria econômica autoexplicativa que muitas vezes é utilizada para expor a razão do momento econômico de uma forma bastante simples, principalmente para responder as questões de “por que a economia não reage” e “quando ela voltará a crescer”, que estão no centro das expectativas do nosso dia a dia, tornando este assunto como uma variável bastante relevante para nós.

A teoria do copo cheio, faz uma analogia bastante simplista, porém bastante explicativa e sem economês, imaginando que o copo é a matriz econômica e o nível de água que está no copo é a capacidade de consumo, fazendo com que o nível seja flutuante e se movimente conforme as atividades e a capacidade das pessoas de consumir. O nível aumenta na medida em que as pessoas vão se endividando, perdendo emprego ou mesmo diminuindo o consumo pela falta de confiança. Conforme os estímulos da economia, o nível aumenta, especialmente quando fomentados pelo crédito e alavancagem dos financiamentos em geral.

Assim, com todos os anos de aumento de estímulos e farto crédito, chegamos a este momento em que o nível da água está quase transbordando o copo. Enfim, ele está completamente cheio.

O tempo é fator racional que explica a analogia do copo cheio em relação à teoria econômica baseada no consumo, como é a do Brasil. A atividade econômica é recuperada pelo TEMPO, uma vez que a “evaporação” diminui o nível da água e faz com que as pessoas voltem a consumir e manter essa capacidade. Enfim, não tem mágica. Somente com a evaporação da água do copo é que o nível de água voltará ao normal.

Foi assim que aconteceu na crise americana, em que uma grande parte da população adquiriu crédito hipotecários, as chamadas mortgage, e isso acabou por destruir a capacidade dos indivíduos de consumirem por um longo período. Durante o período entre 2009 a 2011, os grandes magazines americanos, Bloomingdale’s, Macy’s, Saks Fifth Avenue e outros, estavam abarrotados de turistas, com os poucos americanos comprando estavam catando pechinchas nos outlets. Agora é nossa vez de catar pechinchas, já que possivelmente teremos o pior Natal do comércio em décadas.

Como diriam os americanos: the consumers are gone, ou, em bom português, os consumidores se foram.

Lá nos EUA a teoria do copo cheio também prevaleceu. O processo de recomposição de renda do indivíduo levou quase 4 anos e foi acompanhada de vários estímulos. O principal deles foi o crédito com menor alavancagem e taxa inicial de juros muito baixa, o que prevalece até hoje.

Voltando ao plano interno, acredito que o Banco Central já está percebendo que a retomada da economia não deverá ser tão rápida como alguns agentes econômicos esperavam. Inicialmente a estimativa do PIB para 2017 foi de 2% positivo, posteriormente reajustada para 1,5% e agora fala-se em 1%, caminhando para zero em 2017.

Retornamos à "teoria do copo cheio" que, por mais simples que pareça, é a única realidade conhecida no momento. O fator tempo é considerado na medida em que a recomposição da renda se dá com a capacidade da economia em reagir, principalmente pelo lado do consumo. Não adianta reativar somente o crédito se o consumidor não tem capacidade de pagar. O patamar dos juros deverá ter um papel importante neste contexto, para que a equação consumo, crédito e capacidade de pagamento aconteça.

Assim, o ponto de partida se dará pela queda dos juros como, talvez, o único fator momentâneo. Isso poderá trazer algum estímulo aos consumidores e, consequentemente, reanimar a economia como um todo, alinhado pelo conjunto de reformas necessárias, inclusive fiscal e previdenciária.

Tomar medidas firmes é necessário para governar um país rumo ao desenvolvimento econômico, mas a história mostra que é possível. Faltando apenas 30 dias para encerrar o ano, o momento é planejar.

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Outros assuntos, Política
O impacto de Trump na nossa economia
23 de novembro de 2016 at 07:50 0

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As pesquisas de opinião e previsões de especialistas mais uma vez não se confirmaram e deixaram o mundo perplexo. Tem se tornado uma constante que os prognósticos mais improváveis, como a votação do Brexit, na Europa, e a vitória de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos se tornem realidade e surpreendam a todos. Estamos, sem dúvida, caminhando para um período de incerteza absoluta, inclusive se considerarmos, no caso das eleições norte-americanas, que as últimas pesquisas davam uma pequena vantagem a Hilary Clinton - que se confirmou com a vitória da democrata na votação popular.

A política econômica do governo Obama foi fortemente apoiada na economia de mercado global, totalmente oposta da opção de Trump. O novo presidente tem a promessa de um mercado mais voltado para dentro, com objetivo de incluir novamente um maior contingente da população americana no mercado de trabalho, principalmente com as oportunidades que tem os imigrantes ilegais e o fechamento de postos de trabalho nos Estados Unidos para serem reabertos em outros países.

Apenas após a posse de Donald Trump é que poderemos efetivamente sentir se o discurso do candidato se materializa, uma vez que não são apenas seus atos e intenções que o tornam realidade. O que todos queremos saber, entretanto é o que significa exatamente a vitória do partido republicano para nós e outros países emergentes.

Mesmo em crise, os Estados Unidos são a maior economia do mundo, acredito, portanto, que se 30% das propostas sejam implementadas, o efeito pode ser devastador.

Nós já vivemos um momento semelhante de incerteza, quando Lula assumiu a primeira vez a Presidência da República. Naquela ocasião os mercados precificaram todas as promessas de campanhas e Lula teve que assinar uma carta compromisso prometendo não romper com os mercados como falou em campanha, além de repactuar o pagamento da dívida pública e se retratar com os mercados. Para dar credibilidade a estas ações, montou uma equipe econômica suprapartidária e reconhecida por sua qualidade técnica.

Essa é a tendência de todos os presidentes controversos: em um primeiro momento tomam medidas para acalmar os mercados e em seguida vão implementando as respectivas plataformas de campanha, de acordo com o apoio que receberam para se eleger. Isto acontece de maneira geral e não dá para avaliar se será apenas retórica todo o discurso de Donald Trump em campanha, como também não dá para fazer uma avaliação precisa dos novos passos que seriam dado daqui para frente. O que temos como dado positivo é a biografia empresarial do novo presidente

Avaliando a fundo o cenário, podemos dizer que a economia global e a própria globalização serão reavaliados. Tanto o Brexit quanto Trump receberam os votos contra a globalização dos mercados e a favor da proposta de reequilibrar os mercados pelo viés de maior proteção do mercado interno, ou seja, mais protecionismo, mais inflação e consequentemente mais juros com perspectivas de mais empregos em razão da menor competição externa.

Dessa forma, não dá para que as ações de Trump sejam muito diferentes de seu discurso e isso deve dar início a uma nova ordem econômica para o mundo atual. Economicamente, para os cidadãos americanos, poderá não ser ruim e é curioso ver que este foi o mesmo pensamento que norteou o voto do cidadão inglês, que optou por sair do mercado comum europeu, mesmo que não seja o pensamento de suas cidades principais, líderes e símbolos de globalização, Nova Iorque e Londres, respectivamente.

O fundamento dessas duas vitórias são os mesmos, pois os eleitores que venceram não foram dos grandes centros e mais importantes culturalmente, mas sim os dos estados mais afastados e menos incluídos no processo de globalização.

Para o Brasil, o momento anterior ao da eleição era de uma maior estabilidade e de previsibilidade da nossa economia baseada na vitória da Hilary. Consequentemente e de imediato, uma das possíveis consequências de um presidente polêmico como Trump é a volta da volatilidade nos mercados, câmbio, juros e bolsa que, até então, estavam comportados.

É quase certo também que aconteça um aumento nos juros americanos, o que já tinha sido sinalizado pelo FED e agora depende principalmente dos indicativos da política comercial dos EUA, no que diz respeito a barreira comercial de alguns mercados e até mesmo com aumento de tarifas de importação. O efeito nas relações comerciais, caso algumas promessas venham a ser cumpridas, deverão ser sentidas pelas maiores economias mundiais.

É extremamente relevante e impactante para o resto da economia mundial o efeito da economia do EUA, em razão da moeda norte americana ainda lastrear em todo o mundo as transações comerciais e as reservas dos outros países. O mundo desenvolvido tem vivido um momento de desinflação, juros negativos e baixo crescimento com altíssima liquidez no sistema financeiro, além de uma concentração de renda cada vez maior. Se alguém tem capacidade de mudar este jogo, bastando colocar em prática 30% de suas promessas de campanha, é Donald Trump juntamente com o apoio do Partido Republicano.

Em menos de uma semana vimos o câmbio dar um overshoot, desvalorizando em mais de 10% a moeda americana, e isto faz com que o custo dos hedges ficassem mais caros, com os juros futuros revertendo a tendência de queda dos bonds corporativos brasileiros. Com certeza fica mais caro investir no Brasil e o capital externo exigirá mais premium para vir a investir em nosso país ou outros mercados emergentes, pois a volatilidade do câmbio afasta investimento causado pela incerteza.

Todos sabemos que o impacto no dólar afeta diretamente componentes e produtos importados, que por sua vez comprometem a queda da inflação e, consequentemente, a trajetória de queda dos juros poderá ser mais lenta. A  implementação da política econômica do governo Trump envolve muitas questões comerciais e bilaterais de comércio exterior, principalmente entre EUA e UE, e o efeito dessas decisões redireciona o sistema financeiro mundial, impacta os fluxos de capitais (principalmente para os emergentes como o Brasil) e a tendência é de um fortalecimento do dólar, gerando maiores dificuldades de acessar o mercado interno norte-americano. Até mesmo a China pode ser afetada se Trump seguir com sua promessa de priorizar indústrias americanas.

O câmbio deve se manter volátil pelo menos até o início do governo Trump, mantendo a moeda brasileira pressionada. Acho pouco provável que aconteça uma mudança de percepção sobre a tendência econômica anunciada durante a sua campanha, sendo que o anúncio de seu quadro ministerial e equipe econômica e que emitirá os sinais concretos da direção e real intenção de Donald Trump. Caso esta equipe não inspire confiança, os mercados globais tenderão a reagir com bastante volatilidade. Aliás, esta é a única coisa que é certa: muita volatilidade.

Como sempre, é preciso ver o lado bom das situações. Novamente seremos forçados a agir rápido nas reformas internas, sendo que a fiscal já está em curso e a previdenciária que não pode mais ser adiada. É preciso destravar a economia e nos prepararmos para o efeito externo que poderá não ser nada agradável para nós que já estávamos mais confiantes para uma retomada do crescimento em 2017.

O elefante é o representante oficial do Partido Republicano. Para nós resta esperar que os próximos 4 anos representem a força e a inteligência desse animal e não seu conservadorismo e pretensão. Com a habilidade que Donald Trump demonstrou até aqui, em toda sua carreira empresarial e recente carreira política, só nos resta esperar que essa força também nos ajude a crescer e avançar economicamente.

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Tecnologia
Televisão Pontocom
14 de novembro de 2016 at 17:31 0
O desafio de criar um modelo de negócios sustentável e inovador é a marca da era da internet. Gerar valor a partir de uma ideia é tarefa ousada e com resultado incerto, por isso a decisão de empreender e investir não pode ser feita levianamente. Analisar os cenários é fundamental para não ter prejuízos como os que aconteceram no estouro da bolha da internet, no início dos anos 2000. Google, Yahoo!, Aol e outras sobreviveram à queda da Nasdaq e mostraram a capacidade de se reinventar é tão importante quanto um forte padrão de negócios, que seja lucrativo e possa ser replicado. O curioso é ver que quase 20 anos depois estamos diante de uma nova revolução. Todos sabemos que a chamada web 2.0 modificou a maneira como a comunicação com as massas é feita, no entanto o modelo mais tradicional, a televisão, agora quer conversar com as “pontocom”. Já era de se esperar que isso viesse a acontecer um dia. O acesso a tablets e smartphones aumentou muito nos últimos anos. Estudo encomendado pela LG Eletronics estima que 32% dos aparelhos de televisão no Brasil são smart e 91% deles estão conectados à internet. Se adicionarmos os dispositivos Chromecast, Apple TV e Nexus Player, acredito que esse número pode alcançar quase metade dos televisores no país. Toda essa facilidade muda a relação da televisão com os telespectadores. Segundo o Youtube, jovens entre 13 e 24 anos assistem cerca de 3 horas semanais a mais de vídeos na plataforma, em oposição à televisão tradicional. Além disso, sentem-se melhor ao escolher o que querem assistir. A criação de conteúdo especificamente para consumo “on demand” é uma aposta interessante do ponto de vista dos negócios. Já falei sobre como a utilização de games pode transformar o marketing. Acredito que da mesma forma a utilização de várias plataformas pode mostrar um conteúdo mais rico e dar novas possibilidades tanto a investidores de tecnologia quanto a anunciantes. Há muitos anos as redes de televisão brasileiras vêm ensaiando entrar no mercado web e apesar de não existir uma fórmula perfeita, saber conversar com a audiência é a parte mais importante do processo. No Canadá, a Rogers Communications Inc. decidiu concorrer com a Netflix e criou a Shomi. O serviço de streaming ficou no ar por menos de dois anos e deu prejuízos de aproximadamente R$ 250 mi e os executivos das empresas afirmaram que este tipo de negócio é mais difícil de gerenciar do que parece. Nas redes sociais a audiência da Shomi lamentou a decisão e deu várias sugestões de como o streaming poderia melhorar. O canal Viva foi uma tentativa da Rede Globo de valorizar seu catálogo e combater a pirataria de seu acervo e deu tão certo que chegou a liderar a audiência da TV paga com a reprise de novelas em 2015. A audiência da Rede Globo é tradicionalmente receptiva, porém a inauguração dos serviços GloboPlay e Globosat Play foi no sentido de acompanhar a tendência da migração do consumo ativo de conteúdo pelas novas gerações. Com uma conexão simples de internet em um computador ou tablet, é possível a todo o acervo da maior emissora de televisão do país. A Globo vai virar um Netflix brasileiro? Não, mas certamente ela se posicionou para diminuir a distância entre ela e o gigante do streaming, especialmente no que diz respeito aos valores cobrados dos assinantes: R$ 14,20 por mês ou cadastro nas TVs por assinaturas parceiras. Nenhum povo é igual ao outro e essas diferenças culturais refletem no mercado. A migração do analógico para o digital pode ser feita, mas deve ser planejada com calma para dar resultado. O episódio canadense ensina que serviços como esse devem estar bem adaptados às novas comunicações, que é de duas vias entre a empresa e o telespectador. E o brasileiro que não basta mais uma boa ideia e investimento, é preciso falar o que o público quer ouvir, de maneira criativa. O pioneirismo consiste não apenas em chegar na frente, mas estipular um novo padrão. Será que conseguiremos imaginar onde o futuro pode nos levar?
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